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Durante a viagem
até ao planeta Santo, que o detetive Narciso conhecia como Saturno, o Espírito
Livre falou-lhe de outro conceito, o de “Tempo”, que os fazia diferentes do
resto do Universo. Enquanto o “Tempo de Leve” era retilíneo, o “Tempo do
Universo” era circular.
- Mas isso em
termos práticos, o que significa? – Perguntou o investigador, olhando fascinado
para Santo, que acabara de aparecer num dos cantos do horizonte.
- Significa o
eterno retorno das ideias. Todos os seres vivos são constituídos por ideias,
que um dia se desagregam e que vocês chamam “morte”, e tornam a espalhar-se,
indo depois juntar-se em novas ou na mesma combinação, caso Laputa o deseje,
algures noutro campo do Universo. O “Eterno Retorno” é a chave que abre a
“Razão”. Muitas das nossas vivências desenrolam-se entre dois mundos distintos,
o Real e o Aparente. O satélite natural do planeta Santo, Cister, é considerado
um organismo vivo, e é tratado como tal. Nele a natureza é o único árbitro, o
seu ambiente é fresco e permite o cultivo do alimento mais raro do Universo, a
maçã. Para nos darmos bem com o satélite, é preciso seduzi-lo através da
Irmandade dos Produtores de Maçã. Mas para isso temos de saber ler o Tempo.
Santo foi um país que naufragou nos seus erros e vícios, – exclamou o Espírito
Livre, dando uma volta apertada para a esquerda. – Tenho no meu dorso o peso e
a leveza da lua.
O detective
privado ficou a saber que o seu companheiro desde que tinha mudado para a
condição de anjo carregava em si uma
enorme tristeza, porque perdera o seu centro.
- Estou agora em
todos os sítios e em sítio nenhum. É tudo tão relativo e tão inconstante e as
escolhas que muitas vezes tenho de fazer vão de encontro aos meus princípios.
Sei que agora sou um cidadão do Universo e um soldado de Deus., – confessou o
anjo, embrenhando-se na atmosfera ruidosa de Santo.
Após poisarem no
planeta, o Espírito Livre falou sobre o Anjo dos Lírios, dizendo ser uma grande
figura que pertencia à Constelação Eterna, grupo este que fazia parte de um
outro tempo e se situava numa estrela que já explodira há milhares de séculos.
A missão da Constelação Eterna era manter actualizada a Parede, um local onde
estavam inscritos todos os nomes, de todos os seres do Universo. O anjo tinha
como morada Cister, o Reino dos Lírios, e como função controlar o crescimento
das maçãs.
- Só deus e os
loucos gostam de estar sozinhos. O Anjo dos Lírios tem como missão manter bem
alimentado o Cordeiro Verde.
- Cordeiro
Verde?! – Perguntou o detective, olhando para o rasto luminoso que cortou a
noite cerrada, desaparecendo para os lados de um grande lago, que se via no
horizonte.
- O Cordeiro
Verde é aquele que tira os pecados do Universo, e Leve está cheio deles,
tornou-se uma lixeira, porque os seus habitantes tornaram-se seres piegas, que
pensam que a penitência é o bilhete de entrada para Laputa. Por isso o Cordeiro
Verde anda à procura das “Más Ideias”, escondidas algures nos genes de vários
levenianos. Tem sido um trabalho árduo, e é por isso que ele regressa com
frequência a Cister para se alimentar.
O encontro com o
Anjo dos Lírios, que nunca se chegou a mostrar, mas que estava ancorado numa
estrela, traduziu-se pela oferenda de um saco com maçãs e com o mapa da rota
até Mínio, o último planeta real do Sistema Solar de Leve, e domínio de
Chasmal.
- Depois de um
último, há sempre outro, é este o mistério do Universo.

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