quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Burocracia da Morte - Do encontro com o “Anjo dos Lírios”, de nome Joshua Mahmud Bantu

 

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Durante a viagem até ao planeta Santo, que o detetive Narciso conhecia como Saturno, o Espírito Livre falou-lhe de outro conceito, o de “Tempo”, que os fazia diferentes do resto do Universo. Enquanto o “Tempo de Leve” era retilíneo, o “Tempo do Universo” era circular.

- Mas isso em termos práticos, o que significa? – Perguntou o investigador, olhando fascinado para Santo, que acabara de aparecer num dos cantos do horizonte.

- Significa o eterno retorno das ideias. Todos os seres vivos são constituídos por ideias, que um dia se desagregam e que vocês chamam “morte”, e tornam a espalhar-se, indo depois juntar-se em novas ou na mesma combinação, caso Laputa o deseje, algures noutro campo do Universo. O “Eterno Retorno” é a chave que abre a “Razão”. Muitas das nossas vivências desenrolam-se entre dois mundos distintos, o Real e o Aparente. O satélite natural do planeta Santo, Cister, é considerado um organismo vivo, e é tratado como tal. Nele a natureza é o único árbitro, o seu ambiente é fresco e permite o cultivo do alimento mais raro do Universo, a maçã. Para nos darmos bem com o satélite, é preciso seduzi-lo através da Irmandade dos Produtores de Maçã. Mas para isso temos de saber ler o Tempo. Santo foi um país que naufragou nos seus erros e vícios, – exclamou o Espírito Livre, dando uma volta apertada para a esquerda. – Tenho no meu dorso o peso e a leveza da lua.

O detective privado ficou a saber que o seu companheiro desde que tinha mudado para a condição de anjo  carregava em si uma enorme tristeza, porque perdera o seu centro.

- Estou agora em todos os sítios e em sítio nenhum. É tudo tão relativo e tão inconstante e as escolhas que muitas vezes tenho de fazer vão de encontro aos meus princípios. Sei que agora sou um cidadão do Universo e um soldado de Deus., – confessou o anjo, embrenhando-se na atmosfera ruidosa de Santo.

Após poisarem no planeta, o Espírito Livre falou sobre o Anjo dos Lírios, dizendo ser uma grande figura que pertencia à Constelação Eterna, grupo este que fazia parte de um outro tempo e se situava numa estrela que já explodira há milhares de séculos. A missão da Constelação Eterna era manter actualizada a Parede, um local onde estavam inscritos todos os nomes, de todos os seres do Universo. O anjo tinha como morada Cister, o Reino dos Lírios, e como função controlar o crescimento das maçãs.

- Só deus e os loucos gostam de estar sozinhos. O Anjo dos Lírios tem como missão manter bem alimentado o Cordeiro Verde.

- Cordeiro Verde?! – Perguntou o detective, olhando para o rasto luminoso que cortou a noite cerrada, desaparecendo para os lados de um grande lago, que se via no horizonte.

- O Cordeiro Verde é aquele que tira os pecados do Universo, e Leve está cheio deles, tornou-se uma lixeira, porque os seus habitantes tornaram-se seres piegas, que pensam que a penitência é o bilhete de entrada para Laputa. Por isso o Cordeiro Verde anda à procura das “Más Ideias”, escondidas algures nos genes de vários levenianos. Tem sido um trabalho árduo, e é por isso que ele regressa com frequência a Cister para se alimentar.

O encontro com o Anjo dos Lírios, que nunca se chegou a mostrar, mas que estava ancorado numa estrela, traduziu-se pela oferenda de um saco com maçãs e com o mapa da rota até Mínio, o último planeta real do Sistema Solar de Leve, e domínio de Chasmal.

- Depois de um último, há sempre outro, é este o mistério do Universo.

 

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