domingo, 1 de fevereiro de 2026

1 - Burocracia da Morte - Do encontro entre um anjo conhecido como Espírito Livre e um terrestre de nome Narciso

 


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A casa de banho de um grande Centro Comercial não era propriamente o local ideal para um encontro de trabalho, mas as conceções absurdas tendem a ter mais impacto do que os argumentos sérios. O local estava cheio de gente. O doutor Narciso entrou no preciso momento em que um desconhecido saia duma das cabines. Os seus olhos tocaram-se e as bocas cumprimentaram-se em silêncio. Um tinha uns olhos pretos pequeninos enquanto o outro tinha uns olhos azuis penetrantes. Estava confuso devido à dor forte que sentira no peito, às náuseas e à falta de ar. Resolveu lavar a cara. Quando olhou para o espelho reparou incrédulo que estava em frente do desconhecido que vira momentos antes. Espreitou debaixo da carpete da memória e viu a colecção privada de sonhos vividos. Sentiu de novo uma dor lancinante. Mais nada!

- Conheço-o? – Perguntou, num tom ácido, esquecendo a agonia dos seus vícios, maldades e mesquinhices.

A água das torneiras parou e a multidão esfumou-se, ao mesmo tempo que lhe responderam “sim” com a boca e “não” com a cabeça. Ficou perplexo e confuso.

- Doutor Narciso, eu sou o Espírito Livre e quero contratar os seus serviços. Pago-lhe mil vezes mais.

- Mil vezes?!

- Acha pouco? Então triplico a oferta e pago adiantado dois anos, depois de assinarmos o contrato. Quero que me ajude a encontrar uma senhora chamada Lilith. O meu patrão ficará eternamente agradecido.

- Por esse preço até encontro uma agulha num palheiro e assino todos os contratos, – exclamou o doutor Narciso com um brilho nos olhos, ao mesmo tempo que apertava sofregamente a mão ao seu novo cliente, sem reparar que para isso tinha estendido o braço para lá do espelho.

Nem achou estranho que o Espírito Livre tenha derramado uma gota do seu sangue para fazer a assinatura. O preço era irresistível e procurar mulheres desaparecidas a sua especialidade. Geralmente estavam em fuga de maridos violentos e não tinham muita imaginação no que tocava a esconderijos. E estavam sempre muito carentes.

- Como é que veio ter a mim? – Perguntou, já com o cliente do seu lado.

- Fui enviado de muito longe, poderia mencionar-lhe muitos nomes, mas seria pura perda de tempo, uma vez que não significariam nada para si. O único facto foi a mensagem que lhe deixaram aqui, – e apontou para a cabeça.

- Mensagem?

- Dar aos braços e voar.

- Foi o meu sonho desta noite. Voava, bastava para isso abanar os braços.

- Os sonhos são muitas vezes e-mails enviados pelas estrelas.

O Espírito Livre contou que a doença tinha estragado a vida do seu patrão, tirando-lhe os sonhos, fazendo-o magoar pessoas sem dar por isso. Estava a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz. Por vezes conseguia-o, mas era sempre por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a sua história. Nestas alturas chorava. O seu discurso estava cheio de curvas e por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser ele mesmo? Até onde é que o rosto que via no espelho se afastara por causa da doença? O patrão não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele, emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem senti-la. Até que o inesperado passou a tornar-se o esperado. Estava exausto pela procura de um porto seguro, que lentamente se foi deslocando para o passado. E foi aí que apareceu de novo Lilith. Quando a via erguia muitas vezes um pé num passo indeciso, porque não sabia se era ele que o ia dar, se era o outro. Parecia estar cansado de si mesmo. Mas nestas alturas encontrava sempre a sua identidade.

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