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A casa de banho
de um grande Centro Comercial não era propriamente o local ideal para um
encontro de trabalho, mas as conceções absurdas tendem a ter mais impacto do
que os argumentos sérios. O local estava cheio de gente. O doutor Narciso
entrou no preciso momento em que um desconhecido saia duma das cabines. Os seus
olhos tocaram-se e as bocas cumprimentaram-se em silêncio. Um tinha uns olhos
pretos pequeninos enquanto o outro tinha uns olhos azuis penetrantes. Estava
confuso devido à dor forte que sentira no peito, às náuseas e à falta de ar.
Resolveu lavar a cara. Quando olhou para o espelho reparou incrédulo que estava
em frente do desconhecido que vira momentos antes. Espreitou debaixo da carpete
da memória e viu a colecção privada de sonhos vividos. Sentiu de novo uma dor lancinante.
Mais nada!
- Conheço-o? –
Perguntou, num tom ácido, esquecendo a agonia dos seus vícios, maldades e
mesquinhices.
A água das
torneiras parou e a multidão esfumou-se, ao mesmo tempo que lhe responderam
“sim” com a boca e “não” com a cabeça. Ficou perplexo e confuso.
- Doutor Narciso,
eu sou o Espírito Livre e quero contratar os seus serviços. Pago-lhe mil vezes
mais.
- Mil vezes?!
- Acha pouco?
Então triplico a oferta e pago adiantado dois anos, depois de assinarmos o
contrato. Quero que me ajude a encontrar uma senhora chamada Lilith. O meu
patrão ficará eternamente agradecido.
- Por esse preço
até encontro uma agulha num palheiro e assino todos os contratos, – exclamou o
doutor Narciso com um brilho nos olhos, ao mesmo tempo que apertava
sofregamente a mão ao seu novo cliente, sem reparar que para isso tinha
estendido o braço para lá do espelho.
Nem achou
estranho que o Espírito Livre tenha derramado uma gota do seu sangue para fazer
a assinatura. O preço era irresistível e procurar mulheres desaparecidas a sua
especialidade. Geralmente estavam em fuga de maridos violentos e não tinham
muita imaginação no que tocava a esconderijos. E estavam sempre muito carentes.
- Como é que veio
ter a mim? – Perguntou, já com o cliente do seu lado.
- Fui enviado de
muito longe, poderia mencionar-lhe muitos nomes, mas seria pura perda de tempo,
uma vez que não significariam nada para si. O único facto foi a mensagem que
lhe deixaram aqui, – e apontou para a cabeça.
- Mensagem?
- Dar aos braços
e voar.
- Foi o meu sonho
desta noite. Voava, bastava para isso abanar os braços.
- Os sonhos são
muitas vezes e-mails enviados pelas estrelas.
O Espírito Livre
contou que a doença tinha estragado a vida do seu patrão, tirando-lhe os
sonhos, fazendo-o magoar pessoas sem dar por isso. Estava a caminho do centro
da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar algum
interruptor que lhe acendesse uma luz. Por vezes conseguia-o, mas era sempre
por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a
sua história. Nestas alturas chorava. O seu discurso estava cheio de curvas e
por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser
ele mesmo? Até onde é que o rosto que via no espelho se afastara por causa da
doença? O patrão não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele,
emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à
vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem
senti-la. Até que o inesperado passou a tornar-se o esperado. Estava exausto
pela procura de um porto seguro, que lentamente se foi deslocando para o
passado. E foi aí que apareceu de novo Lilith. Quando a via erguia muitas vezes
um pé num passo indeciso, porque não sabia se era ele que o ia dar, se era o
outro. Parecia estar cansado de si mesmo. Mas nestas alturas encontrava sempre
a sua identidade.

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