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Percorreram
cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a
vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio tinha tido um papel central em
Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes
tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o
seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a
mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.
- Os habitantes
desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e
continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, – disse
o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.
Quando a ordem
foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se
interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito
tivera origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de
Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento o falecimento de Deus, como
sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito
que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus
existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente
impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os
Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a
Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subversivo e iniciaram uma guerra,
que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os
amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas
definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro, único órgão comum, de
todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância
negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.
- Mas a
“substância negra” não existe em todos os cérebros, – indignou-se o detective.
- Só nas
criaturas falsas é que não existe!
-“Criaturas
falsas”?!
- Seres que não
têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.
- “Clone”?!
- Algures no
Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar
que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se
terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas
ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que
estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas
partes.
- “Cordeiro
Verde”?!
- O Cordeiro de
Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.
As bandeiras
coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os
vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em
conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse
possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os
problemas em reuniões contínuas desde então. Mas a ideia principal que fora o
motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para
outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo
surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?
- Para os
vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis os sete, para os verdes
os vinte, – explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de
aproximação da nave.
- Afinal a
política está em todo o lado!

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