domingo, 22 de fevereiro de 2026

8 - Do “Grande Silêncio” até à Porta do Reino de Deus, passando pelos Piratas de Plutão

 

8

Percorreram cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio tinha tido um papel central em Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.

- Os habitantes desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, – disse o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.

Quando a ordem foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito tivera origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento o falecimento de Deus, como sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subversivo e iniciaram uma guerra, que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro, único órgão comum, de todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.

- Mas a “substância negra” não existe em todos os cérebros, – indignou-se o detective.

- Só nas criaturas falsas é que não existe!

-“Criaturas falsas”?!

- Seres que não têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.

- “Clone”?!

- Algures no Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas partes.

- “Cordeiro Verde”?!

- O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.

As bandeiras coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os problemas em reuniões contínuas desde então. Mas a ideia principal que fora o motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?

- Para os vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis os sete, para os verdes os vinte, – explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de aproximação da nave.

- Afinal a política está em todo o lado!   

 

 

Sem comentários: