quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Burocracia da Morte - Do encontro com o “Demónio do Meio-Dia”, em Phobos, de nome Violeto Serra.

 


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Phobos significava “terror” e quem o descobriu enlouqueceu. Era um dos satélites do planeta Loga e, segundo a lenda, artificial. Quando Laputa resolveu criar a espécie leveniana, enviou para o planeta Leve um casal especialmente dotado para a procriação: Adão e Lilith, a fêmea mais bonita do Universo, dotada de genes escolhidos pelo próprio Deus. Phobos foi enviada, mas algo não correu como o planeado, e quando a nave passou junto a Loga, uma tempestade solar empurrou-o para a órbita do planeta e ficou presa. O Centro de Comando de Sulis quis intervir, mas como as desavenças entre os dois partidos mais poderosos de Laputa, os “Criacionistas” e os do “Livre Arbítrio”, estavam ao rubro, Deus não deixou. O casal ficou à mercê do Demónio do Meio-dia que matou Lilith e pôs Eva no seu lugar. Mas Lilith, a Princesa Perfeita, já tinha tido seis filhas durante a longa viagem, as Lilim, hermafroditas, que fugiram de Phobos com a ajuda do pai, sendo enviadas clandestinamente para Leve. Com o tempo Adão acabou por afeiçoar-se a Eva e esta conseguiu convencer o Demónio do Meio-Dia, dando-lhe uma maçã, a fruta mais rara do Universo, a levá-los para Leve, pois o domínio que o casal tinha do Mentino, a linguagem universal, permitir-lhes-ia coexistir com as outras espécies do Centro do Universo e manter o fornecimento de maçãs regular. Foram os dias do Paraíso. Mas Eva não conseguiu engravidar e Adão nunca mais teve notícias das suas adoradas Lilith, que acabaram por conviver com as outras espécies, excepto Perséfone, a mais velha. Nasceu assim uma nova raça sem o sentido do Mentino, e sem este dom a luta pela sobrevivência depressa tomou conta dos destinos de todos aqueles que habitavam o planeta Leve. Foi uma vitória para os adeptos do “Livre Arbítrio”.

Quando o Espírito Livre poisou no satélite de Loga, levando no seu dorso Narciso, o seu detective particular, estremeceu e sentiu um abraço frio, que o fez experimentar o excesso, o terror do seu próprio tempo. Ele sabia que estavam numa linha de risco.

- Este demónio também é canibal? – Perguntou o passageiro, limpando o pó do cosmos que se tinha acumulado nas golas, dando um aspecto de caspa.

- Não, o Demónio do Meio-Dia anda há séculos numa demanda sem fim, por amor de uma dama. Nessa viagem já conviveu com grandes deuses, conhecidos e desconhecidos. É um visionário que pretende a junção do “Criacionismo” com o “Livre Arbítrio”, num só ideal, que traga paz ao Universo e dê descanso a Deus. Este demónio só é terrível aos olhos da ignorância. E ao pé dele todos parecemos ignorantes, – respondeu, em estado de alerta, o Espírito Livre.

- Estás com medo dele?

- Medo não diria, respeito. O Universo está cheio de criaturas que julgam saber tudo, e com essas ele sempre foi implacável.

- E tu pensas que sabes tudo?

- O que Deus procura é a perfeição, nada menos. Mas este problema está a acordar coisas que ninguém quer enfrentar.

À medida que conversavam, resolveram explorar o ambiente. Não precisaram de andar muito até descobrirem um vulto ajoelhado junto de um túmulo.

- Vê o Anjo do Meio-Dia a chorar junto do túmulo da sua amada Lilith.

- Amada?! Então ele não a matou?

- Matou-a por amor a Deus. Phobos nunca deveria ter encontrado Marte. Lilith sugou-lhe a atmosfera para conseguir alimentar as suas filhas. O Demónio do Meio-Dia tinha aceite a missão de Deus, que era proteger o planeta Loga, e falhara, e tudo por causa da sua eterna amada, que um dia conhecera em Laputa. Teve de fazer a mais terrível das opções. Procura agora a alma de Lilith, guardada algures pelo Cordeiro Verde nos confins do Universo.

- Alma de Lilith? Fui contratado para procurar um fantasma? – Perguntou exaltado o detective Narciso.

- Disseste que por aquele preço até procuravas uma agulha num palheiro. E Lilith não é bem um fantasma.

Bastou o barulho seco de uma bota a desfazer um pedaço de rocha, para fazer com que o Demónio do Meio-Dia se voltasse e abrisse as asas em aviso, deixando à vista as últimas palavras de Lilith, que ficaram gravadas na pedra, antes de morrer:

 

“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.

 

- Quem são vocês que ousam pisar o território obscuro e incompreensível, onde Adão e Eva andaram de calções?

- Uns simples viajantes à procura do caminho para Laputa. Levo no meu dorso um leveniano que foi contratado para descobrir uma mulher, – respondeu o Espírito Livre saudando-o com as suas majestosas asas.

- Cada um de nós tem um pedaço de caminho e, todos juntos, chegamos a Laputa. O meu vai dar a Cister, o reino dos lírios.

- Fico-te muito grato pela informação, e desejo-te todo o amor do mundo na demanda pela tua querida amada. Sinto que aquele que levo no dorso, ser-te-á um dia muito útil.

Cister, conhecida dos terrestres por Io, era um dos dezasseis satélites do maior planeta do Universo, Santo, e o mais interior, constituído por planaltos e planícies cobertos de vegetação.

Combinaram um novo encontro para o dia seguinte e cada um seguiu para o seu espaço, o Espírito Livre para o Mundo Real e o detetive Narciso Baeta para o Mundo Aparente, cuja porta de acesso era a da cabine do WC do Centro Comercial. 


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