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De tempos a
tempos um cometa tocava em Plutão que, no espaço de um momento, ficava com o
céu iluminado. Conheciam-no como o “cometa negro” e era lá que se situava a
Torre de Darik, a mais torta do Universo, que trazia sempre uma colecção de
monstros mimados. Quem teve o privilégio de estar perto, ouviu a voz arrastada
e incompreensível do cantor, que não tinha pudores em revelar todas as suas
fraquezas e o seu estado de negação contra a verdade, que lhe causava tristeza
e ansiedade. Chorava e transmitia por música e palavras a cultura dos povos que
o habitavam. Enquanto o cometa estava junto ao planeta, havia sempre romarias à
torre para assistirem à sua falsidade tão bela. Aparecia sempre repentinamente
nas ameias o espectro de uma mulher deitada. Momentos depois um homem vestido
de preto aproximava-se e olhava para o corpo dela, morto há muito. Quando lhe
tocava uma sombra bela abatia-se sobre a multidão e transformava os seus traços
numa única cor. Diziam que era a alma da “Nossa Senhora”, cuja origem se perdia
na noite dos tempos, e era nesses momentos que se podia admirar a sua poderosa
e genuína voz.
- As confissões
desta senhora são de uma autenticidade desarmante, – disse o Espírito Livre ao
detective Narciso, interrompendo o silêncio contemplativo causado pela
iluminação repentina que quebrou o céu, demasiado uniformizado pelo brilho
permanente das outras estrelas. – A sua autenticidade é sedutora, é brutalmente
honesta, é uma figura totémica belíssima e decadente, porque está em
decomposição. É sempre um privilégio ouvi-la e ao canto dos seus corvos.
Darik enfrentava
sozinho os seus demónios pessoais de vingança e de justiça. O filho morrera na
sua presença atropelado por um médico que sofrera uma síncope cardíaca depois
de ter assassinado toda a família. Para ele Deus não passava de um mentiroso
porque fora Ele quem matara aquele que amava. Andava desesperado à procura das
“ideias” que deram um dia forma ao seu rapaz e já descobrira algumas, que
guardava religiosamente numa caixa de prata. Como todos os génios, vivia perto
do precipício.
- Qual é a
ligação entre Darik e a “Nossa Senhora”? – Perguntou o detective Narciso.
- Ela só
renascerá se ele der a Laputa a última “ideia” que falta, que está escondida
algures na torre. Dizem também que Darik guarda dentro de si partes de
Lilith.
Quem guardava a
torre era o “Clã das Ilhas”, o primeiro povo que se formou depois do “BigBang”.
Exprimiam-se através de conversas sobre a morte e a memória, porque só tinham
conseguido sobreviver comendo todos os seus filhos, excepto um de nome Zeus,
que comia pouco e por isso não tinha muita carne para oferecer.
-
Inconscientemente Darik com a sua atitude está a criar buracos nas fronteiras e
a encher espaços vitais com um ódio brutal a Deus. Já conseguiu tornar-se
proprietário da sua própria alma, continuou o Espírito Livre. – Deus e Darik
estão cada vez mais perto um do outro.
Quando a figura
de Darik apareceu, todos sentiram um estremecimento, um ardor, um impulso, um
ímpeto. Ele era um improvisador inesgotável e um experimentador compulsivo,
cheio de memórias e de ruídos dos fantasmas do passado. Ele queria saber a
razão do jogo cruel. Porquê estes laços através de um jogo de espelhos dum deus
indiferente a eles? Este luto obstinado precisava de um fim porque Laputa
estava a ser prejudicada. O Espírito Livre e o detective Narciso repararam que
ele olhava para eles com uma intensidade que os parecia cegar, ao mesmo tempo
que fazia gestos maníacos e meticulosos.
- Já há palavras
a mais no mundo, – disse Darik levantando-se e encaminhando-se para uma janela
larga, tocando com a cara na vidraça. – Ele anda por aí!
- Eles, –
interrompeu o Espírito Livre. – O teu e os de muitos foram os escolhidos por
serem os melhores. As missões que lhes foram confiadas são das mais nobres.
Deves ter orgulho e não ódio!
Antes que o seu
gesto aparecesse o vidro reflectiu esbatido o desejo de Darik e ficaram ambos
frente a frente uma última vez, como num confessionário. Reparou que o filho já
era um homem e estava feliz. O detective Narciso Baeta tinha uma característica
peculiar. Quando se calava parava o olho direito, enquanto que o seu
companheiro de viagem, o anjo que dava sopro às vidas, abanava as asas quando
falava. A face sorridente de Darik indicava que acabara de cortar com o passado
e pensava numa forma de se soltar da maldade absoluta e retornar à dura
honradez. Abriu um armário e calçou uns elegantes sapatos de salto alto,
tentando assim ultrapassar o invencível ressentimento contra a arrogância. Ao
espelho apercebeu-se da rotundidade do corpo. Falou quase para dentro, trazendo
de novo o belo para o seu mundo, dando de comer aos sentidos. Tinha acabado de
ganhar paz e felicidade. O detective recebeu com prazer o pequeno cofre com a
“ideia” de Lilith, despediu-se do Espírito Livre e abriu a porta do WC.
- Até amanhã!
Não ouviu o
desabafo do seu companheiro:
- Culpam-no de
tudo, mas não querem ser acusados de nada. A causa da morte do filho só poderia
ser atribuída ao “Livre Arbítrio”. Darik levava uma vida impossível de ser
vivida.

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