quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

11 - Do Anjo do Tempo, amo da Águia Tipilina que carrega o Livro de Bordo

 


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O Anjo do Tempo era conhecido por fazer muitas perguntas e assentar sempre as respostas no seu Livro de Bordo. O Espírito Livre suspeitava que estariam lá algumas menções a Lilith. Quem o guardava era uma águia de nome Tipilina que só levantava voo de Bactria ao entardecer. Por isso deveriam consultá-lo antes dessa hora

- O livro é um labirinto e para conseguirmos lê-lo precisamos de atravessar um desfiladeiro estreito.

Para o Anjo do Tempo a guerra era um lugar turístico interessante, porque era lá que se ouvia com toda a nitidez o som do corpo, que era feito de pequenos gestos e expressões do rosto, que mostravam que Deus era o extremo exercício da beleza. O anjo era o fruto do que vira, vivera e aprendera, numa época saturada pelo Mal, onde o terror tinha cabeça, tronco e membros.

- Tens a certeza de que estamos a ir em direção ao Céu? Parece-me mais o Inferno, – perguntou o detetive Narciso à medida que se ia informando acerca daquele que iriam visitar.

- Deus não joga aos dados, – respondeu o Espírito Livre. – O Anjo do Tempo vai fazer-te umas perguntas a quem deseja entrar em Laputa e as respostas que deres decidirão o teu destino.

- Mas quem me contratou decerto que quererá falar comigo.

- E tu julgas que todos estes anjos andaram a fazer o quê?

- Assessores? Eles são assessores de Deus?

- O Anjo do Tempo irá tentar abrir brechas no teu inconsciente, desapossando-o das suas defesas, a razão. Ele é um demónio de culto que canta sempre a favor da marijuana. Mas eu tenho aqui as perguntas, – deu-lhe um papel.

- Cunhas?

- Tenho os meus contactos.

- Assim sim, até dá vontade de ser crente.

 

Há uma violência boa?

Todo o Mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?

 

A intenção do inquérito desenvolvia-se em torno da ideia da “sensação de medo”, dentro de uma tónica da destruição contínua. Todos passavam por esta fase, e muitos pensavam que tinham vivido e convencido para serem os eleitos, mas as respostas repunham sempre a verdade. Havia quotas no Céu e a seleção era rigorosa. Mas o caso do detetive era diferente. Deus tinha contratado os seus serviços, e ele teria de entrar provisoriamente em Laputa, passando pelos crivos do Anjo do Tempo, para não dar nas vistas. O interrogatório iria desenrolar-se numa sala cujos cantos eram abaulados, com uma mesa no centro, com uma enorme maçã vermelha, lisa e luminosa. Uma janela deixava entrar o brilho e a névoa dum mar distante, para dar um pouco de calor a este jogo frio. O anjo possuía um olhar límpido, transparente, perfeito, representava a beleza pura. No passado tinha tido um desgosto de amor por uma ninfa. Foram separados com irresistível violência e após suicidar-se, Deus tinha-lhe dado este árduo trabalho.

- Quando se passa por aquela porta percorre-se dez mil anos da História. Laputa é absolutamente fascinante, ali frutificaram as ideias mais sublimes, é o local onde os pormenores são muito importantes, – explicou o anjo resgatador de almas.

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta passou no exame com “Distinção”, a única classificação possível para entrar no Reino de Deus e foi imediatamente separado do Espírito Livre e entregue ao Anjo Pipoca que o iria conduzir até Laputa.

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