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O Anjo do Tempo
era conhecido por fazer muitas perguntas e assentar sempre as respostas no seu
Livro de Bordo. O Espírito Livre suspeitava que estariam lá algumas menções a
Lilith. Quem o guardava era uma águia de nome Tipilina que só levantava voo de
Bactria ao entardecer. Por isso deveriam consultá-lo antes dessa hora
- O livro é um
labirinto e para conseguirmos lê-lo precisamos de atravessar um desfiladeiro
estreito.
Para o Anjo do
Tempo a guerra era um lugar turístico interessante, porque era lá que se ouvia
com toda a nitidez o som do corpo, que era feito de pequenos gestos e
expressões do rosto, que mostravam que Deus era o extremo exercício da beleza.
O anjo era o fruto do que vira, vivera e aprendera, numa época saturada pelo
Mal, onde o terror tinha cabeça, tronco e membros.
- Tens a certeza
de que estamos a ir em direção ao Céu? Parece-me mais o Inferno, – perguntou o
detetive Narciso à medida que se ia informando acerca daquele que iriam
visitar.
- Deus não joga
aos dados, – respondeu o Espírito Livre. – O Anjo do Tempo vai fazer-te umas
perguntas a quem deseja entrar em Laputa e as respostas que deres decidirão o
teu destino.
- Mas quem me
contratou decerto que quererá falar comigo.
- E tu julgas que
todos estes anjos andaram a fazer o quê?
- Assessores?
Eles são assessores de Deus?
- O Anjo do Tempo
irá tentar abrir brechas no teu inconsciente, desapossando-o das suas defesas,
a razão. Ele é um demónio de culto que canta sempre a favor da marijuana. Mas
eu tenho aqui as perguntas, – deu-lhe um papel.
- Cunhas?
- Tenho os meus
contactos.
- Assim sim, até
dá vontade de ser crente.
Há uma violência
boa?
Todo o Mal terá
uma entidade metafísica a fundamentá-lo?
O que é a vida?
Onde fica o
paraíso?
O que é maior que
Deus?
O que é pior que
o Diabo?
A intenção do
inquérito desenvolvia-se em torno da ideia da “sensação de medo”, dentro de uma
tónica da destruição contínua. Todos passavam por esta fase, e muitos pensavam
que tinham vivido e convencido para serem os eleitos, mas as respostas repunham
sempre a verdade. Havia quotas no Céu e a seleção era rigorosa. Mas o caso do
detetive era diferente. Deus tinha contratado os seus serviços, e ele teria de
entrar provisoriamente em Laputa, passando pelos crivos do Anjo do Tempo, para
não dar nas vistas. O interrogatório iria desenrolar-se numa sala cujos cantos
eram abaulados, com uma mesa no centro, com uma enorme maçã vermelha, lisa e
luminosa. Uma janela deixava entrar o brilho e a névoa dum mar distante, para
dar um pouco de calor a este jogo frio. O anjo possuía um olhar límpido,
transparente, perfeito, representava a beleza pura. No passado tinha tido um
desgosto de amor por uma ninfa. Foram separados com irresistível violência e
após suicidar-se, Deus tinha-lhe dado este árduo trabalho.
- Quando se passa
por aquela porta percorre-se dez mil anos da História. Laputa é absolutamente
fascinante, ali frutificaram as ideias mais sublimes, é o local onde os pormenores
são muito importantes, – explicou o anjo resgatador de almas.
O detetive
Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta passou no exame com “Distinção”, a única
classificação possível para entrar no Reino de Deus e foi imediatamente
separado do Espírito Livre e entregue ao Anjo Pipoca que o iria conduzir até
Laputa.

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