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Lilith tomou a iniciativa e avançou.
- As “ideias” que dão existência a tudo são imutáveis, mas podem ser aperfeiçoadas à medida que vamos sendo cada vez mais felizes, - explicou a anja abrindo os braços virtuais. – É a “Fantasia da Felicidade” ou “Efeito Feliz”, as coisas existem e Deus pode aperfeiçoá-las. Por isso é que o Bem e o Mal são dois mundos em estertor e tensão, ao mesmo tempo que fazem parte integrante das suas existências, aspirações e pensamentos.
O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta só deixou de olhar, embevecido, para a fêmea alada, e raivosa, quando ela abriu intempestivamente duas portas que davam para um vasto jardim, gritando:
- Eis o famoso Paraíso, onde Eva nunca comeu maçãs, porque não gostava, mas acima de tudo porque Deus só plantou figueiras. Um figo, uma história diabólica por causa de um figo, – e aproximou-se, envolvendo o convidado com todo o seu irresistível charme.
O senhor Narciso provocou-a:
- “Confortai-me com maçãs, pois desfaleço de amor”, cantares de Salomão na Bíblia.
- Esse livro foi escrito por impostores, por aqueles que tudo fizeram para crucificar o Filho de Deus. Ele chegou aqui em muito mau estado. Como pode ver, no Paraíso não há macieiras, somente figueiras. Foi o que Eva comeu, sem pedir autorização ao dono e por isso foi expulsa. Inventaram o ridículo “pecado original” que vos condenou à finitude e à culpa.
Lilith puxou com violência o detetive até junto de uma grande pedra, apesar dele não lhe sentir os ossos, encostou-se ainda mais ao seu corpo e sussurrou-lhe:
- Esta é a “Pedra da Paciência” que absorve, como uma esponja, todos os segredos, misérias e sofrimentos daqueles que dirigiam a palavra a Deus.
A anja estava agora mais emocional do que racional e envolveu o detetive com uma luz radiosa de amor. A posição do convidado permitia-lhe escutar a rocha e ele ouviu uma cançoneta ligeira ingenuamente melodiosa, ao mesmo tempo que a atmosfera se adensou e a perceção das coisas se modificou. Sentiu um pavor e ao mesmo tempo um deslumbramento. Nunca conseguiu manter uma distância cautelosa da mulher, nem ela o deixava. Da anja sobressaía um sentimento de revolta muito grande, ela parecia querer acordar consciências e ele conseguiu ver, num turbilhão, a sua voz, a memória, os feitos, o todo capaz de construir a personagem. Estavam tão juntos que as pernas se fundiram numa só e ele sentiu-lhe os ossos. Lilith afastou-se repentinamente, alternando entre a saúde e a insanidade e o convidado sentiu um frio e viu a luz partir. Quando a claridade voltou reparou que a pedra tinha sido substituída por uma árvore. Olhou para Lilith, sentiu-se contaminado com as suas piscadelas de olho violentas e não aguentou as pálpebras. O detetive via aquela mulher como um ser estranho à lógica e à moral, que parecia alternar entre a fidelidade, o adultério e a triangulação amorosa, misturando conspirações, segredos e mentiras perversas. Nesse momento compreendeu porque é que a doce visão da face feminina do divino se convertera em tormento. Tudo se misturava na sua cabeça, um sonho, talvez, que se tornara realidade. A árvore transmitia-lhe uma enorme carga mística e por isso avançou para ela de olhos vendados, baixando a cabeça.






