quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

11 - Do Anjo do Tempo, amo da Águia Tipilina que carrega o Livro de Bordo

 


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O Anjo do Tempo era conhecido por fazer muitas perguntas e assentar sempre as respostas no seu Livro de Bordo. O Espírito Livre suspeitava que estariam lá algumas menções a Lilith. Quem o guardava era uma águia de nome Tipilina que só levantava voo de Bactria ao entardecer. Por isso deveriam consultá-lo antes dessa hora

- O livro é um labirinto e para conseguirmos lê-lo precisamos de atravessar um desfiladeiro estreito.

Para o Anjo do Tempo a guerra era um lugar turístico interessante, porque era lá que se ouvia com toda a nitidez o som do corpo, que era feito de pequenos gestos e expressões do rosto, que mostravam que Deus era o extremo exercício da beleza. O anjo era o fruto do que vira, vivera e aprendera, numa época saturada pelo Mal, onde o terror tinha cabeça, tronco e membros.

- Tens a certeza de que estamos a ir em direção ao Céu? Parece-me mais o Inferno, – perguntou o detetive Narciso à medida que se ia informando acerca daquele que iriam visitar.

- Deus não joga aos dados, – respondeu o Espírito Livre. – O Anjo do Tempo vai fazer-te umas perguntas a quem deseja entrar em Laputa e as respostas que deres decidirão o teu destino.

- Mas quem me contratou decerto que quererá falar comigo.

- E tu julgas que todos estes anjos andaram a fazer o quê?

- Assessores? Eles são assessores de Deus?

- O Anjo do Tempo irá tentar abrir brechas no teu inconsciente, desapossando-o das suas defesas, a razão. Ele é um demónio de culto que canta sempre a favor da marijuana. Mas eu tenho aqui as perguntas, – deu-lhe um papel.

- Cunhas?

- Tenho os meus contactos.

- Assim sim, até dá vontade de ser crente.

 

Há uma violência boa?

Todo o Mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?

 

A intenção do inquérito desenvolvia-se em torno da ideia da “sensação de medo”, dentro de uma tónica da destruição contínua. Todos passavam por esta fase, e muitos pensavam que tinham vivido e convencido para serem os eleitos, mas as respostas repunham sempre a verdade. Havia quotas no Céu e a seleção era rigorosa. Mas o caso do detetive era diferente. Deus tinha contratado os seus serviços, e ele teria de entrar provisoriamente em Laputa, passando pelos crivos do Anjo do Tempo, para não dar nas vistas. O interrogatório iria desenrolar-se numa sala cujos cantos eram abaulados, com uma mesa no centro, com uma enorme maçã vermelha, lisa e luminosa. Uma janela deixava entrar o brilho e a névoa dum mar distante, para dar um pouco de calor a este jogo frio. O anjo possuía um olhar límpido, transparente, perfeito, representava a beleza pura. No passado tinha tido um desgosto de amor por uma ninfa. Foram separados com irresistível violência e após suicidar-se, Deus tinha-lhe dado este árduo trabalho.

- Quando se passa por aquela porta percorre-se dez mil anos da História. Laputa é absolutamente fascinante, ali frutificaram as ideias mais sublimes, é o local onde os pormenores são muito importantes, – explicou o anjo resgatador de almas.

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta passou no exame com “Distinção”, a única classificação possível para entrar no Reino de Deus e foi imediatamente separado do Espírito Livre e entregue ao Anjo Pipoca que o iria conduzir até Laputa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

10 - Do encontro com o Anjo Confuso de nome Tátá e com um medo profundo

 

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Foi um encontro curioso quanto inesperado. Tátá era um anjo patético e confuso, defensor dos seres destituídos de afetos, com uma obsessão alucinante pela vida. Era considerado um ser notável, que transmitia energia e poder. Sentia-se a vibração no ar porque a frequência que emitia era forte. Estava sentado numa secretária junto à porta de acesso à Casa de Deus, e tinha por detrás de si, pendurado na parede, um quadro de grandes dimensões. E foi a pintura que primeiro chamou a atenção do detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta.

- Magnífica, que obra de arte!

- Representa Deus e foi pintado pelo único ser do Universo que O conseguiu representar: Da Vinci!  - Explicou o Espírito Livre.

O detetive imaginou-O em si. A pintura de Deus era a pintura do medo, do esplendor, do amor, da promessa, da ameaça. Ele sabia que por debaixo da claridade de Deus havia sempre uma escuridão.

- Eu nunca o imaginei assim, com uma forma. Sempre pensei em algo…gasoso, rodeado de luxos e extravagâncias.

Tátá nem levantou a cabeça, ignorou-os.

- Está a desenhar micróbios, - disse o Espírito Livre quando reparou que o detetive olhava para o anjo.

- Desenhar micróbios?

- É a função dele.

Do lado esquerdo havia uma enorme escadaria e foi por lá que seguiram. O detetive reparou que as paredes estavam cheias de “graffitis”, com representações da morte, da vida e dos sentimentos, que no seu caso estavam à flor da pele.

- Um momento, – chamou alguém quando o detetive se preparava para abrir a Porta de Deus.

Era o Anjo Confuso, que odiava e amava demasiado as pessoas ao mesmo tempo. Odiava-se a si mesmo, odiava a sua essência interna, a sua ternura, a gentileza extrema, a fragilidade. Pertencia a uma família de diabos de cauda curta, que o tinham renegado. As suas inseguranças e fraquezas perseguiam-no, desafiava a morte como incentivo para a vida, e isso era muito doloroso e triste para este anjo dotado de uma vontade indómita de viver. Acreditava que os momentos de solidão, reflexão e de tristeza eram fundamentais para se descer ao mais íntimo, ao mais profundo e ao mais negro, para assim se retirar de lá os impulsos para a vida.

- Cuidado com os efeitos perversos destes desenhos, – disse Tátá com uma voz cristalina, sem conseguir encarar os estranhos.

O Anjo Confuso tinha uma história tão longa e aventurosa como o território que representava.

- Senhor, sei o que procura. Consta que na “Colina de Ouro” em Bactria vive lá alguém com cinco “ideias” de Lilith.

- Bactria?

- É por aí, – respondeu Tátá, apontando para uma portinhola do lado esquerdo da grande.

Quando o detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta a abriu, viu que do outro lado o mar corria para eles enlouquecido e elegante, cheio de fluxos e refluxos, de correntes e remoinhos. Estava na cabine com os pés dentro de água.

- Meus senhores, houve uma rotura dum cano e a casa-de-banho vai ser encerrada.

O dia tinha chegado ao fim ia agora meditar e trincar qualquer coisa num dos fast-foods.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

9 - Do encontro com Nossa Senhora e o carcereiro de nome Darik

 

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De tempos a tempos um cometa tocava em Plutão que, no espaço de um momento, ficava com o céu iluminado. Conheciam-no como o “cometa negro” e era lá que se situava a Torre de Darik, a mais torta do Universo, que trazia sempre uma colecção de monstros mimados. Quem teve o privilégio de estar perto, ouviu a voz arrastada e incompreensível do cantor, que não tinha pudores em revelar todas as suas fraquezas e o seu estado de negação contra a verdade, que lhe causava tristeza e ansiedade. Chorava e transmitia por música e palavras a cultura dos povos que o habitavam. Enquanto o cometa estava junto ao planeta, havia sempre romarias à torre para assistirem à sua falsidade tão bela. Aparecia sempre repentinamente nas ameias o espectro de uma mulher deitada. Momentos depois um homem vestido de preto aproximava-se e olhava para o corpo dela, morto há muito. Quando lhe tocava uma sombra bela abatia-se sobre a multidão e transformava os seus traços numa única cor. Diziam que era a alma da “Nossa Senhora”, cuja origem se perdia na noite dos tempos, e era nesses momentos que se podia admirar a sua poderosa e genuína voz.

- As confissões desta senhora são de uma autenticidade desarmante, – disse o Espírito Livre ao detective Narciso, interrompendo o silêncio contemplativo causado pela iluminação repentina que quebrou o céu, demasiado uniformizado pelo brilho permanente das outras estrelas. – A sua autenticidade é sedutora, é brutalmente honesta, é uma figura totémica belíssima e decadente, porque está em decomposição. É sempre um privilégio ouvi-la e ao canto dos seus corvos.

Darik enfrentava sozinho os seus demónios pessoais de vingança e de justiça. O filho morrera na sua presença atropelado por um médico que sofrera uma síncope cardíaca depois de ter assassinado toda a família. Para ele Deus não passava de um mentiroso porque fora Ele quem matara aquele que amava. Andava desesperado à procura das “ideias” que deram um dia forma ao seu rapaz e já descobrira algumas, que guardava religiosamente numa caixa de prata. Como todos os génios, vivia perto do precipício.

- Qual é a ligação entre Darik e a “Nossa Senhora”? – Perguntou o detective Narciso.

- Ela só renascerá se ele der a Laputa a última “ideia” que falta, que está escondida algures na torre. Dizem também que Darik guarda dentro de si partes de Lilith. 

Quem guardava a torre era o “Clã das Ilhas”, o primeiro povo que se formou depois do “BigBang”. Exprimiam-se através de conversas sobre a morte e a memória, porque só tinham conseguido sobreviver comendo todos os seus filhos, excepto um de nome Zeus, que comia pouco e por isso não tinha muita carne para oferecer.

- Inconscientemente Darik com a sua atitude está a criar buracos nas fronteiras e a encher espaços vitais com um ódio brutal a Deus. Já conseguiu tornar-se proprietário da sua própria alma, continuou o Espírito Livre. – Deus e Darik estão cada vez mais perto um do outro.

Quando a figura de Darik apareceu, todos sentiram um estremecimento, um ardor, um impulso, um ímpeto. Ele era um improvisador inesgotável e um experimentador compulsivo, cheio de memórias e de ruídos dos fantasmas do passado. Ele queria saber a razão do jogo cruel. Porquê estes laços através de um jogo de espelhos dum deus indiferente a eles? Este luto obstinado precisava de um fim porque Laputa estava a ser prejudicada. O Espírito Livre e o detective Narciso repararam que ele olhava para eles com uma intensidade que os parecia cegar, ao mesmo tempo que fazia gestos maníacos e meticulosos.

- Já há palavras a mais no mundo, – disse Darik levantando-se e encaminhando-se para uma janela larga, tocando com a cara na vidraça. – Ele anda por aí!

- Eles, – interrompeu o Espírito Livre. – O teu e os de muitos foram os escolhidos por serem os melhores. As missões que lhes foram confiadas são das mais nobres. Deves ter orgulho e não ódio!

Antes que o seu gesto aparecesse o vidro reflectiu esbatido o desejo de Darik e ficaram ambos frente a frente uma última vez, como num confessionário. Reparou que o filho já era um homem e estava feliz. O detective Narciso Baeta tinha uma característica peculiar. Quando se calava parava o olho direito, enquanto que o seu companheiro de viagem, o anjo que dava sopro às vidas, abanava as asas quando falava. A face sorridente de Darik indicava que acabara de cortar com o passado e pensava numa forma de se soltar da maldade absoluta e retornar à dura honradez. Abriu um armário e calçou uns elegantes sapatos de salto alto, tentando assim ultrapassar o invencível ressentimento contra a arrogância. Ao espelho apercebeu-se da rotundidade do corpo. Falou quase para dentro, trazendo de novo o belo para o seu mundo, dando de comer aos sentidos. Tinha acabado de ganhar paz e felicidade. O detective recebeu com prazer o pequeno cofre com a “ideia” de Lilith, despediu-se do Espírito Livre e abriu a porta do WC.

- Até amanhã!

Não ouviu o desabafo do seu companheiro:

- Culpam-no de tudo, mas não querem ser acusados de nada. A causa da morte do filho só poderia ser atribuída ao “Livre Arbítrio”. Darik levava uma vida impossível de ser vivida.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

8 - Do “Grande Silêncio” até à Porta do Reino de Deus, passando pelos Piratas de Plutão

 

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Percorreram cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio tinha tido um papel central em Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.

- Os habitantes desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, – disse o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.

Quando a ordem foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito tivera origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento o falecimento de Deus, como sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subversivo e iniciaram uma guerra, que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro, único órgão comum, de todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.

- Mas a “substância negra” não existe em todos os cérebros, – indignou-se o detective.

- Só nas criaturas falsas é que não existe!

-“Criaturas falsas”?!

- Seres que não têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.

- “Clone”?!

- Algures no Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas partes.

- “Cordeiro Verde”?!

- O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.

As bandeiras coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os problemas em reuniões contínuas desde então. Mas a ideia principal que fora o motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?

- Para os vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis os sete, para os verdes os vinte, – explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de aproximação da nave.

- Afinal a política está em todo o lado!   

 

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

7 - Do encontro com “Lorde Fantasma” também conhecido por o “Anjo Demónio”

 


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Todos aqueles que iam ao seu encontro, eram sempre recebidos com incerteza. Era o mais agressivo e minimal dos demónios, acabando sempre por gerar tanto amores como ódios. Ele encarava o “Livre Arbítrio” de uma forma espontânea, correndo muitas vezes o risco de não perceber muito bem o que se estava a passar à sua volta. O “Lorde Fantasma” tinha acesso às mais negras visões do mundo e aos subterrâneos onde estavam guardados os terrores nocturnos e os seres de outras dimensões. Era uma espécie de jardim zoológico. Aproximaram-se com precaução e curiosidade do seu ninho, que mostrava a alegria da cor. Pediu-lhes para esperar um pouco, fazendo sinal com o braço. Estava na parte final de uma corrida de lagartos, sentado numa cadeira e olhando para um tronco.

- Sou um viciado nestes jogos da quinta dimensão, que me distraem da guerra inacabada que Deus não conseguiu resolver, – explicou-lhes.

Tinha uma voz suave e meiga.

- Antes Deus criava as verdades, como o Tempo, mas agora apareceram outros com criativas controvérsias e novas Ideias, e o Caos está à espera do momento para atacar, – continuou, ajeitando um dos corredores que se tinha despistado. – Leve começou a exportar a intolerância, que tem afetado, e muito, a evolução das outras espécies. Deus não tem ilusões sobre as fraquezas, as demências e os crimes dos homens. Mas o Seu otimismo assenta no facto de eles serem capazes de criar o sublime, e assim conseguirem acalmar o nosso descontentamento. É por isso que é considerado um povo mitológico.

- Um povo mitológico?! – Perguntou o detetive Narciso, olhando fixamente para o Lorde. – A maioria é só bêbados e chungosos!

- Foram os únicos dotados por Laputa com comportamentos prescritos, mas com a evolução adquiriram outros, não previstos, que os tornaram sanguinários, ferozes, com uma ganância ilimitada, apesar de conservarem ainda as marcas de Deus, a música, a poesia e a matemática.

- A música há para todos os gostos, a poesia ainda escapa, agora a matemática! – Indignou-se o senhor Baeta.

- Mas o mundo deles tornou-se fechado e previsível, – acrescentou o Espírito Livre. – O seu Eterno Retorno deixou de ser seletivo.

- É a encenação do conflito e da desordem, mas no fim Leve terá de ficar pacificado, senão pelo castigo dos prevaricadores, pelo menos pela compreensão dos seus pecados, – explicou o Lorde. - Narciso, aqui tens o véu sagrado da deusa Lilith, onde terão de ser depositados os pedaços de Lilith, para que Deus os junte. O véu indica o caminho para Laputa.

O detetive sabia agora que estava perto do seu destino, mas a investigação ultrapassava tudo o que tinha imaginado. Teriam sido os honorários suficientes? Compreendia agora porque é que o Espírito Livre exigira uma gota do seu sangue para a assinatura do contrato. A sua alma já não lhe pertencia, estava algures cativa num qualquer canto do Universo. Só lhe restava ir descansar para o seu Mundo Aparente, onde abrira escritório.

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

6 - Do encontro com o “Demónio da Cruz” também conhecido pelo amante das “Heroínas Angélicas”

 

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Este demónio sabia exaltar primorosamente a escuridão e a tragédia, gostava de belas catástrofes impregnadas de horror e adorava dar um bom mergulho nas profundezas das intrigas abençoadas. Foram recebidos por um anão com um olho na testa, que os conduziu para uma floresta cerrada, onde a cor azul predominava.

- Não tenham receio deste demónio, pois ele é o único com coragem e audácia para fazer o trabalho desejado.

- Mas que “trabalho desejado” é esse? – Perguntou o detective.

- Limpar Leve!

- Limpar?!

- O projecto “Adão e Lilith”. Estava destinado ao sucesso, mas devido ao “Livre Arbítrio” Laputa não quis interferir e repor a trajectória da nave, que fora atraída inesperadamente pelo planeta Loga. Lilith morreu, porque o Demónio do Meio-Dia cumpriu as ordens de Deus, protegendo o planeta da força destruidora dela, que foi injusta, interesseira e excessiva. Matou-a por fidelidade a Deus e perdeu para sempre o amor desta deusa inteligente, divertida e subversiva.

A conversa foi interrompida porque chegaram a uma clareira, onde alguém os esperava, acompanhado por um cordeiro verde.

- Sejam bem-vindos ao meu domínio, – cumprimentou o Demónio da Cruz. – Sei que a vossa missão é importante para Laputa e para Leve, caso contrário o leveniano não tinha sido contratado. Precisam de chegar à Casa de Deus, e pelo caminho encontrar as “ideias” de Lilith. Os projectos mal acabados nunca foram uma grande escolha.

- Sabe onde estão essas “ideias” de Lilith? – Perguntou diretamente o senhor Narciso, olhando em redor.

- Esconderam-nas numa das ilhas do Espírito Santo, uma leveniana com o nome de Rita Bouvalier, divorciada do senhor Darik proprietário de uma torre, e distribuíram-nas pelas quatro pequenas salas da sua alma, correspondendo a cada uma delas um leveniano anónimo, – respondeu o Demónio da Cruz, e continuou. – Uma deusa não pode morrer, mas sim ser dividida. O Demónio do Meio-Dia dividiu-a e atirou os seus pedaços ao ar, que foram recolhidos pelo Cordeiro Verde, mais conhecido pelo “Cordeiro de Deus”, que lhes tirou os pecados, e agora protege-a da sua própria vingança. A perda afetiva do Demónio do Meio-Dia que teve de escolher entre Deus e a sua amada, agravou-lhe o lado negro e isso ele não quer aceitar. E Lilith é uma deusa enlouquecida pelos maus-tratos. É por isso que no planeta Veri irão encontrar o véu sagrado da deusa Lilith, protetora de Leve, que vos indicará o caminho para Laputa. Lilith não teve sorte, porque o tempo não se aliou a ela e porque ela também desprezou o tempo. Entrem com cautela na cidade, porque ela está com medo de si mesma e é escrava dos fantasmas que a assombram e que são de outras eras e pertença do Lorde Fantasma.

- Então o animal que está ao seu lado tem a Lilith? – Interrompeu o detetive.

- Ele está no Mundo Real e num tempo muito remoto e não aqui, - explicou o Espírito Livre.

- O leveniano tem poderes para juntar Lilith, sinto-lhe o ardor da sobrevivência pura, – disse o Demónio do Meio-Dia, tocando no ombro do Espírito Santo, e desaparecendo de seguida.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

5 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Anjo do Fogo” também conhecido por Chasmal

 


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Para se entrar no ninho de Chasmal passava-se através de uma caixa que reproduzia os sons do fundo do mar, mostrando a história de Plutão Antigo desde as dinastias que prepararam os faraós de Leve, até ao aparecimento do “Naos das Décadas”, o Calendário Astrológico de Deus, com nichos para os tempos de todos os Anjos e Demónios do Universo. Preservava um relato único, escrito em Mentino, sobre a criação do Mundo. Chasmal gostava muito de contos de fadas e, devido ao lugar fantástico que era o Mundo criado pelo Senhor, das histórias do Noddy. Era muito erótico, meio cínico, meio ingénuo. Tinha um sonho, jantar com Lilith à luz das estrelas, mas sabia que isso nunca se concretizaria, pois era muito beato, e para ele a deusa era tão louca quanto sonhadora e dominadora no território dos sentimentos. Como Chefe Supremo nunca poderia prender-se a um dos maiores poços de egocentrismo pois o cargo exigia-lhe rigidez e austeridade, mas por vezes tinha encontros fortuitos com ninfas, onde se davam práticas satisfatórias e outras meiguices. Todos o respeitavam porque havia sempre uma inteligência, uma seriedade, uma sabedoria nas suas decisões e acima de tudo uma relação afetiva fortíssima com os seus soldados. Tinha como companheira fiel uma garça insuflável, oferta de um leveniano em transição para Laputa. Cuscuz simbolizava para ele a liberdade, sensualidade, a força sexual que lhe transmitia sensações ao corpo. Através deste anjo conhecia-se o que estava oculto, pois ele não se detinha nas barreiras do espaço e do tempo. Fora ele que resgatara o funcionário enviado muitos anos antes para Leve, após os levenianos o terem crucificado. O Anjo do Fogo era o Comandante Supremo das Dominações, cento e trinta milhões, trezentos e seis mil e seiscentos e sessenta e oito anjos formavam o seu exército, cuja missão era proteger Leve. Este Anjo-Chefe era muito poderoso, assim como o seu exército profissional. Chasmal sabia que os soldados do outro lado tinham-se embrenhado lentamente por todos os recantos de Leve, através de nuvens negras, deixando pensamentos cheios de trovoadas pesadas e longínquas, que pareceram suspender-se no céu de todas as vidas. Ele sabia que o fim do Quarto Império se aproximava. Este anjo era fluído e exuberante, capaz de sugerir o dramatismo dos acontecimentos de forma exemplar, sendo um ícone para os querubins. Nos tempos livres adorava tocar harpa e pertencia a um quarteto único no Universo, formado por Kronos, o guarda da Torre de Darik, Hapi e Hathor, que se reuniam uma vez por ano em Laputa para comemorarem o aniversário de Deus.

- Todos os seres vivos são constituídos por ideias, e quando os seus destinos se cumprem, as ideias desagregam-se e regressam novamente ao limbo, para serem outra vez juntas, em novas combinações. Acontece o mesmo aos deuses, porque o “Livre Arbítrio” assim o obriga, mas o novo processo é diretamente dirigido por Deus que, de um modo geral, e usando o poder que o “Criacionismo” lhe dá, reconduz as mesmas ideias, e dá outra vez vida ao mesmo deus. Laputa quer de novo Lilith, e esta missão é da vossa responsabilidade. Até lá a dissolução mantém-se, até Deus intervir e alterar o percurso existencial da deusa. Precisam de ir diretos para Atuá encontrar-se com o amante das “Heroínas Angélicas”!

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

4 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Anjo dos Lírios”, de nome Joshua Mahmud Bantu

 

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Durante a viagem até ao planeta Santo, que o detetive Narciso conhecia como Saturno, o Espírito Livre falou-lhe de outro conceito, o de “Tempo”, que os fazia diferentes do resto do Universo. Enquanto o “Tempo de Leve” era retilíneo, o “Tempo do Universo” era circular.

- Mas isso em termos práticos, o que significa? – Perguntou o investigador, olhando fascinado para Santo, que acabara de aparecer num dos cantos do horizonte.

- Significa o eterno retorno das ideias. Todos os seres vivos são constituídos por ideias, que um dia se desagregam e que vocês chamam “morte”, e tornam a espalhar-se, indo depois juntar-se em novas ou na mesma combinação, caso Laputa o deseje, algures noutro campo do Universo. O “Eterno Retorno” é a chave que abre a “Razão”. Muitas das nossas vivências desenrolam-se entre dois mundos distintos, o Real e o Aparente. O satélite natural do planeta Santo, Cister, é considerado um organismo vivo, e é tratado como tal. Nele a natureza é o único árbitro, o seu ambiente é fresco e permite o cultivo do alimento mais raro do Universo, a maçã. Para nos darmos bem com o satélite, é preciso seduzi-lo através da Irmandade dos Produtores de Maçã. Mas para isso temos de saber ler o Tempo. Santo foi um país que naufragou nos seus erros e vícios, – exclamou o Espírito Livre, dando uma volta apertada para a esquerda. – Tenho no meu dorso o peso e a leveza da lua.

O detective privado ficou a saber que o seu companheiro desde que tinha mudado para a condição de anjo  carregava em si uma enorme tristeza, porque perdera o seu centro.

- Estou agora em todos os sítios e em sítio nenhum. É tudo tão relativo e tão inconstante e as escolhas que muitas vezes tenho de fazer vão de encontro aos meus princípios. Sei que agora sou um cidadão do Universo e um soldado de Deus., – confessou o anjo, embrenhando-se na atmosfera ruidosa de Santo.

Após poisarem no planeta, o Espírito Livre falou sobre o Anjo dos Lírios, dizendo ser uma grande figura que pertencia à Constelação Eterna, grupo este que fazia parte de um outro tempo e se situava numa estrela que já explodira há milhares de séculos. A missão da Constelação Eterna era manter actualizada a Parede, um local onde estavam inscritos todos os nomes, de todos os seres do Universo. O anjo tinha como morada Cister, o Reino dos Lírios, e como função controlar o crescimento das maçãs.

- Só deus e os loucos gostam de estar sozinhos. O Anjo dos Lírios tem como missão manter bem alimentado o Cordeiro Verde.

- Cordeiro Verde?! – Perguntou o detective, olhando para o rasto luminoso que cortou a noite cerrada, desaparecendo para os lados de um grande lago, que se via no horizonte.

- O Cordeiro Verde é aquele que tira os pecados do Universo, e Leve está cheio deles, tornou-se uma lixeira, porque os seus habitantes tornaram-se seres piegas, que pensam que a penitência é o bilhete de entrada para Laputa. Por isso o Cordeiro Verde anda à procura das “Más Ideias”, escondidas algures nos genes de vários levenianos. Tem sido um trabalho árduo, e é por isso que ele regressa com frequência a Cister para se alimentar.

O encontro com o Anjo dos Lírios, que nunca se chegou a mostrar, mas que estava ancorado numa estrela, traduziu-se pela oferenda de um saco com maçãs e com o mapa da rota até Mínio, o último planeta real do Sistema Solar de Leve, e domínio de Chasmal.

- Depois de um último, há sempre outro, é este o mistério do Universo.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

3 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Demónio do Meio-Dia”, em Phobos, de nome Violeto Serra.

 


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Phobos significava “terror” e quem o descobriu enlouqueceu. Era um dos satélites do planeta Loga e, segundo a lenda, artificial. Quando Laputa resolveu criar a espécie leveniana, enviou para o planeta Leve um casal especialmente dotado para a procriação: Adão e Lilith, a fêmea mais bonita do Universo, dotada de genes escolhidos pelo próprio Deus. Phobos foi enviada, mas algo não correu como o planeado, e quando a nave passou junto a Loga, uma tempestade solar empurrou-o para a órbita do planeta e ficou presa. O Centro de Comando de Sulis quis intervir, mas como as desavenças entre os dois partidos mais poderosos de Laputa, os “Criacionistas” e os do “Livre Arbítrio”, estavam ao rubro, Deus não deixou. O casal ficou à mercê do Demónio do Meio-dia que matou Lilith e pôs Eva no seu lugar. Mas Lilith, a Princesa Perfeita, já tinha tido seis filhas durante a longa viagem, as Lilim, hermafroditas, que fugiram de Phobos com a ajuda do pai, sendo enviadas clandestinamente para Leve. Com o tempo Adão acabou por afeiçoar-se a Eva e esta conseguiu convencer o Demónio do Meio-Dia, dando-lhe uma maçã, a fruta mais rara do Universo, a levá-los para Leve, pois o domínio que o casal tinha do Mentino, a linguagem universal, permitir-lhes-ia coexistir com as outras espécies do Centro do Universo e manter o fornecimento de maçãs regular. Foram os dias do Paraíso. Mas Eva não conseguiu engravidar e Adão nunca mais teve notícias das suas adoradas Lilith, que acabaram por conviver com as outras espécies, excepto Perséfone, a mais velha. Nasceu assim uma nova raça sem o sentido do Mentino, e sem este dom a luta pela sobrevivência depressa tomou conta dos destinos de todos aqueles que habitavam o planeta Leve. Foi uma vitória para os adeptos do “Livre Arbítrio”.

Quando o Espírito Livre poisou no satélite de Loga, levando no seu dorso Narciso, o seu detective particular, estremeceu e sentiu um abraço frio, que o fez experimentar o excesso, o terror do seu próprio tempo. Ele sabia que estavam numa linha de risco.

- Este demónio também é canibal? – Perguntou o passageiro, limpando o pó do cosmos que se tinha acumulado nas golas, dando um aspecto de caspa.

- Não, o Demónio do Meio-Dia anda há séculos numa demanda sem fim, por amor de uma dama. Nessa viagem já conviveu com grandes deuses, conhecidos e desconhecidos. É um visionário que pretende a junção do “Criacionismo” com o “Livre Arbítrio”, num só ideal, que traga paz ao Universo e dê descanso a Deus. Este demónio só é terrível aos olhos da ignorância. E ao pé dele todos parecemos ignorantes, – respondeu, em estado de alerta, o Espírito Livre.

- Estás com medo dele?

- Medo não diria, respeito. O Universo está cheio de criaturas que julgam saber tudo, e com essas ele sempre foi implacável.

- E tu pensas que sabes tudo?

- O que Deus procura é a perfeição, nada menos. Mas este problema está a acordar coisas que ninguém quer enfrentar.

À medida que conversavam, resolveram explorar o ambiente. Não precisaram de andar muito até descobrirem um vulto ajoelhado junto de um túmulo.

- Vê o Anjo do Meio-Dia a chorar junto do túmulo da sua amada Lilith.

- Amada?! Então ele não a matou?

- Matou-a por amor a Deus. Phobos nunca deveria ter encontrado Marte. Lilith sugou-lhe a atmosfera para conseguir alimentar as suas filhas. O Demónio do Meio-Dia tinha aceite a missão de Deus, que era proteger o planeta Loga, e falhara, e tudo por causa da sua eterna amada, que um dia conhecera em Laputa. Teve de fazer a mais terrível das opções. Procura agora a alma de Lilith, guardada algures pelo Cordeiro Verde nos confins do Universo.

- Alma de Lilith? Fui contratado para procurar um fantasma? – Perguntou exaltado o detective Narciso.

- Disseste que por aquele preço até procuravas uma agulha num palheiro. E Lilith não é bem um fantasma.

Bastou o barulho seco de uma bota a desfazer um pedaço de rocha, para fazer com que o Demónio do Meio-Dia se voltasse e abrisse as asas em aviso, deixando à vista as últimas palavras de Lilith, que ficaram gravadas na pedra, antes de morrer:

 

“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.

 

- Quem são vocês que ousam pisar o território obscuro e incompreensível, onde Adão e Eva andaram de calções?

- Uns simples viajantes à procura do caminho para Laputa. Levo no meu dorso um leveniano que foi contratado para descobrir uma mulher, – respondeu o Espírito Livre saudando-o com as suas majestosas asas.

- Cada um de nós tem um pedaço de caminho e, todos juntos, chegamos a Laputa. O meu vai dar a Cister, o reino dos lírios.

- Fico-te muito grato pela informação, e desejo-te todo o amor do mundo na demanda pela tua querida amada. Sinto que aquele que levo no dorso, ser-te-á um dia muito útil.

Cister, conhecida dos terrestres por Io, era um dos dezasseis satélites do maior planeta do Universo, Santo, e o mais interior, constituído por planaltos e planícies cobertos de vegetação.

Combinaram um novo encontro para o dia seguinte e cada um seguiu para o seu espaço, o Espírito Livre para o Mundo Real e o detetive Narciso Baeta para o Mundo Aparente, cuja porta de acesso era a da cabine do WC do Centro Comercial. 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

2 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Demónio de Marte”, de nome Evaristo da Silva

 

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Assustou-se quando o Espírito Livre lhe fez sinal para entrar numa das cabines do WC mas ao transpor a porta tudo mudou. Um encontro, com sucesso, com um demónio, obrigava a medidas rigorosas como por exemplo ter um conhecimento aprofundado do ser em questão.

- O primeiro aspecto é que não há dois demónios iguais, entre os milhares que se passeiam por todo o Universo – explicou o Espírito Livre. – A visita pode ser muito útil, pois eles abarcam a totalidade do saber, ou pode ser mortal, caso a hora escolhida tenha sido a errada. Neste caso, o senhor Evaristo da Silva é canibal e muito tóxico. Nós vamos encontrá-lo com a barriga cheia, ou seja, inofensivo durante as próximas doze horas. Um anjinho, no sentido literal da palavra.

Encontraram-se junto a um ribeiro, na Cidade Interna de Monória, algures na Quinta Posoninnes, Quadrante Terceiro. O ogre esperava-os e fez sinal para se sentarem.

- Vejo que o meu amigo, além de previdente, – e apontou para o Espírito Livre, – foi bem aconselhado. Estou em plena digestão e com todo o meu saber, que não é pouco, escancarado.

- Segundo dizem, o senhor Evaristo é uma biblioteca universal.

- Quem diz isso são sempre os imprevidentes que vêm falar comigo quando estou com a barriga vazia. É o que eu chamo de “comida ao domicílio”. Quando se apercebem da situação delicada em que se encontram, fazem de tudo para conseguirem ir jantar a casa. Só que é sempre tarde demais. Mas mesmo assim os boatos espalham-se. Sei algumas coisinhas, o território por onde deambulo à procura de comida é imenso, e por isso abarco a totalidade do saber, e não me satisfaço com pouco. Mas, o que é que o traz por aqui?

- Falar sobre uma senhora chamada Lilith e saber o caminho para Laputa, – disse o doutor Narciso, aproximando-se do ogre, mas afastando-se de imediato, repelido pelo cheiro tóxico do demónio, agora convertido em anjo.

- Duas palavras indissociáveis. “Leve”, a menina dos olhos do Arquitecto, o “Centro do Universo”, onde Ele guardou a sua “criação”, como prova do Seu grande amor. Mas depressa os levianos se acharam no direito de fazer a globalização metafísico-cosmológica, como se fossem os donos do Universo. E o nosso Pai nada fez, ofendendo os Senhores dos Ares, que acabaram por dizer “basta”, deixando Laputa em crise.

- Palavras que nada me dizem, – exclamou o detective, acendendo um cigarro e atirando um fumo provocador para o bicho.

- Vê-se que vens de Leve. São os únicos que conseguem olhar para a Morte fixamente. E para o Sol?

- Com óculos escuros!

A conversa foi interrompida pelo Espírito Livre que pediu uma pausa para aconselhar o seu detective.

- O ogre está a ficar nervoso. A imagem que pensava que os outros tinham dele, está a ser desagregada por ti a partir do momento em que o olhaste nos olhos. Está-se a dissolver, a enlouquecer, e isso pode levá-lo à morte. Precisamos das coordenadas da próxima etapa.

- Eu nasci cidadão de Marte, mas agora sou cidadão do Mundo e de todos os tempos, – gritou o demónio, abrindo as asas. – Leveniano, as tuas palavras estão repletas da força intrínseca da tua raça, mas revelas os genes ilegais de Eva e duas ideias de Lilith. Estás a desafiar as leis do planeta para além do que é razoável. Foi por isso que eu fui condenado ao movimento eterno. Não posso permanecer muito tempo no mesmo lugar. Mereces ver Laputa, o Oráculo de Delfos espera por ti!

Dito isto bateu as asas e começou a subir lentamente, enquanto os outros dois o observavam a desaparecer num cume sem montanha, envolto num eterno entardecer, que os distraia do peso incessante da vida.

- Cada anjo tem uma bem determinada função, – disse o Espírito Livre. – Este é um adepto da “criação”, da “domesticação” e da “selecção” de todos os seres do Universo. Para ele o “sucesso” de todos passa pela qualidade. E Deus guarda uma ferida por curar: Leve!

- Outra vez “Leve”?

- A tua “Terra”, o teu planeta!

- Queres dizer que a Terra não tem qualidade?

- A Terra não, a tua espécie.

- E segundo o ogre, se não há qualidade, apaga-se!

- Sim, segundo os adeptos da “criação” a evolução do Homem tornou-se inútil, ele deixou de ser leal, de ter confiança e de ter informação. Mas Leve tem um defensor do “Livre Arbítrio”, outra corrente, que é Deus, mas que nega tudo, que revela uma mágoa que vem do fundo mais remoto de Si. Eu atravessei meio Universo com uma obstinação tenaz de chegar à solução, que faça com que Deus, a Razão de todos nós, pare de chorar. E não tenho complacências!

- O ogre deu-nos uma pista!

- Ele analisa sempre as pessoas e contigo não conseguiu ser tagarela. Foi obrigado a revelar as coordenadas, perdeu a batalha da retórica, mas há-de regressar e virá com enorme violência.

- Oráculo de Delfos? Que lugar é este?

- É aqui ao lado em Phobos.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

1 - Burocracia da Morte - Do encontro entre um anjo conhecido como Espírito Livre e um terrestre de nome Narciso

 


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A casa de banho de um grande Centro Comercial não era propriamente o local ideal para um encontro de trabalho, mas as conceções absurdas tendem a ter mais impacto do que os argumentos sérios. O local estava cheio de gente. O doutor Narciso entrou no preciso momento em que um desconhecido saia duma das cabines. Os seus olhos tocaram-se e as bocas cumprimentaram-se em silêncio. Um tinha uns olhos pretos pequeninos enquanto o outro tinha uns olhos azuis penetrantes. Estava confuso devido à dor forte que sentira no peito, às náuseas e à falta de ar. Resolveu lavar a cara. Quando olhou para o espelho reparou incrédulo que estava em frente do desconhecido que vira momentos antes. Espreitou debaixo da carpete da memória e viu a colecção privada de sonhos vividos. Sentiu de novo uma dor lancinante. Mais nada!

- Conheço-o? – Perguntou, num tom ácido, esquecendo a agonia dos seus vícios, maldades e mesquinhices.

A água das torneiras parou e a multidão esfumou-se, ao mesmo tempo que lhe responderam “sim” com a boca e “não” com a cabeça. Ficou perplexo e confuso.

- Doutor Narciso, eu sou o Espírito Livre e quero contratar os seus serviços. Pago-lhe mil vezes mais.

- Mil vezes?!

- Acha pouco? Então triplico a oferta e pago adiantado dois anos, depois de assinarmos o contrato. Quero que me ajude a encontrar uma senhora chamada Lilith. O meu patrão ficará eternamente agradecido.

- Por esse preço até encontro uma agulha num palheiro e assino todos os contratos, – exclamou o doutor Narciso com um brilho nos olhos, ao mesmo tempo que apertava sofregamente a mão ao seu novo cliente, sem reparar que para isso tinha estendido o braço para lá do espelho.

Nem achou estranho que o Espírito Livre tenha derramado uma gota do seu sangue para fazer a assinatura. O preço era irresistível e procurar mulheres desaparecidas a sua especialidade. Geralmente estavam em fuga de maridos violentos e não tinham muita imaginação no que tocava a esconderijos. E estavam sempre muito carentes.

- Como é que veio ter a mim? – Perguntou, já com o cliente do seu lado.

- Fui enviado de muito longe, poderia mencionar-lhe muitos nomes, mas seria pura perda de tempo, uma vez que não significariam nada para si. O único facto foi a mensagem que lhe deixaram aqui, – e apontou para a cabeça.

- Mensagem?

- Dar aos braços e voar.

- Foi o meu sonho desta noite. Voava, bastava para isso abanar os braços.

- Os sonhos são muitas vezes e-mails enviados pelas estrelas.

O Espírito Livre contou que a doença tinha estragado a vida do seu patrão, tirando-lhe os sonhos, fazendo-o magoar pessoas sem dar por isso. Estava a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz. Por vezes conseguia-o, mas era sempre por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a sua história. Nestas alturas chorava. O seu discurso estava cheio de curvas e por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser ele mesmo? Até onde é que o rosto que via no espelho se afastara por causa da doença? O patrão não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele, emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem senti-la. Até que o inesperado passou a tornar-se o esperado. Estava exausto pela procura de um porto seguro, que lentamente se foi deslocando para o passado. E foi aí que apareceu de novo Lilith. Quando a via erguia muitas vezes um pé num passo indeciso, porque não sabia se era ele que o ia dar, se era o outro. Parecia estar cansado de si mesmo. Mas nestas alturas encontrava sempre a sua identidade.