sábado, 2 de maio de 2026

49 - (15) Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - A Aldeia Mais Alta

 

15

A noite chegou calmamente e o dia tornou-se artificial. O tempo está ameno e a população da aldeia Mais Alta juntou-se na rua aos inúmeros peregrinos. A Catedral do Céu está com as luzes acesas, roubando às trevas parte da região. Miguel Pheidão janta pensativamente numa das centenas de esplanadas, tendo como companhia uma montra atestada de santos multicolores.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita um homem de meia-idade, furando a multidão que desliza em sentido contrário.

Por momentos o agente monárquico fixa a cara do vendedor, mas depressa retorna à leitura do jornal. Fica a saber que há graves problemas na República do Baço, o poder caiu na rua, o governo e o presidente fugiram para a Federação dos Rins e as forças armadas dividiram-se. Aliá, a grande capital, está a ser saqueada e nenhum país quer intervir. Pensa-se que o Cancro está por detrás da agitação e que ajuda o grupo de libertação Pus. A população foge em debandada, mas todas as fronteiras estão bloqueadas.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita de novo o vendedor, vindo agora ao sabor da corrente.

Aproxima-se do restaurante e pergunta ao agente Pheidão:

- Caro senhor, o que pensa do santo desta terra?

- Li muito pouco acerca dele, mas parece ser um bom negócio para a aldeia.

- O senhor vem aqui por causa do santo?

- Não, vim por outras razões, mas estou a começar a gostar do ambiente. Nestas festas religiosas há sempre muita boa comida. Quanto custa?

- Tome, não precisa de pagar, – e entrega-lhe um exemplar, embrenhando-se de seguida na multidão.

Do outro lado da avenida um estranho casal delicia-se com apetitosas carícias. Ela está sentada, tem os braços levantados, abanando-os freneticamente, a boca aberta lança para o ar ruídos semiescos, ao mesmo tempo que revira ininterruptamente os olhos. A roupa curta põe à mostra uma pelagem abundante, que parece cobrir todo o corpo. O macho observa com carinho a expressão corporal da amada, toca-lhe na cabeça e esta tenta agarrá-lo de imediato. Consegue fazê-lo e este deita-se no banco com a barriga para cima, descansando a cabeça no seu colo. De imediato a namorada põe-lhe as mãos na cara e tenta agarrar-lhe os olhos, que são fechados com rapidez. Os dedos da rapariga dão de caras com os orifícios do longo apêndice nasal e embrenham-se sofregamente por ele acima. Os lábios do macho afastam-se de imediato e os olhos abrem-se, em sinal de prazer profundo. Logo de seguida uma das mãos descai levemente e penetra com ganância na boca do namorado, tentando pescar-lhe a língua. Dá-se início a um jogo frenético, em que uma mão feminina tenta agarrar uma língua masculina em fuga, acompanhada com gritos de paixão alucinantes, num tempo que é só deles e num espaço do tamanho de um banco de jardim, fazendo coro com centenas de pardais, que esvoaçam por cima das cabeças, e que ocupam sem cerimónia todo o ar das esplanadas. A relação acaba abruptamente, com o rapaz a lançar-se para o chão em êxtase total.

- Coitados dos pobres de espírito, pois deles também não será o reino dos céus, – grita alguém em cima de um chafariz, convidando a população para um debate.

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua! - Exclama Miguel Pheidão.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio.

- Tens fotografias do santo em cuecas? - Pergunta o mais famoso motorista, sendo acompanhado com gritos estridentes.

- O teu sarcasmo é sinal de que nada esperas do futuro, és prisioneiro num mundo que está constantemente a desaparecer e até o teu passado se altera com os dias, – responde- lhe o vendedor, apontando um punho ameaçador.

- Prefiro viver alegremente o presente e não prescindo das minhas origens primitivas, pois isso é sinal de que também faço parte da terra. E tu, ó mercador de almas, tens medo de quê? Eu sei que do futuro tudo temes, é por isso que tentas agradar aos céus, para ver se te arranjam um lugar. Tens medo do pó e queres esquecer-te que foi de lá que vieste.

- Tu estás condenado a ter o mesmo futuro que eu, é esse o teu pesadelo, a tua alma estremece ao ouvir que os santos também usam cuecas. O senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua também poderá vir a ser um santo, e é esse o teu medo, tens pavor que eu daqui a uns anos também venda revistas acerca da tua vida íntima.

- Cala-te, não digas blasfémias terroristas, tu queres é acelerar o nosso destino, para poderes ir mais depressa para junto dos teus santos eunucos.

- Eunucos!?? Fica sabendo que os santos são os seres mais férteis do Universo, são os únicos capazes de se cruzarem com as outras espécies.

- Então o Santo Octávio tem filhos escaravelhos? - Pergunta com escárnio o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua (como exige ser chamado!).

- A essa curiosidade não te satisfaço, tens de me comprar um livro para saberes.

- Malditos judeus, até aqui neste recanto escondido do Universo vocês existem. Este é que é o maior castigo de Deus!... Convenceste-me, quero um desses livros – diz o mais célebre motorista orador, descendo do púlpito e agarrando sofregamente “ A vida íntima do Santo Octávio “.

- Eu também quero uma - pede Miguel Pheidão aproximando-se do vendedor e tocando-lhe num ombro.

- Até que enfim que se decide a falar comigo, vim à aldeia Mais-Alta para trocarmos impressões acerca do futuro do Corpo.

- Cancro? O senhor é o representante?

- Em carne e osso, mas já com a alma um pouco distante, – diz, puxando o agente cardíaco para a esplanada.

- Então passou várias vezes por mim e não me disse nada!!?

- A abordagem tinha de ser feita por si, tinha de haver algo que nos aproximasse.

- Por mim? Mas eu nunca o tinha visto, como é que podia ir ter consigo?

- Vai descobrir muitas mais afinidades no Cancro do que as que pensa que tem pelo Coração! As almas conhecem-se em todos os sítios, os empecilhos são os nossos corpos.

- É esse o vosso lema, matar os corpos para libertar as almas?

- Mais ou menos, mas não podemos esquecer que para o trabalho ser perfeito o Tempo tem de ser ignorado.

- Mas porquê destruir tudo, aniquilar, vocês matam mulheres, crianças e velhos, muitos deles indefesos. Isso é cobardia – reclama o agente cardíaco Miguel Pheidão, agarrando com força nas mãos do seu interlocutor.

- As sociedades atingiram um estádio sem retorno, a nossa espécie está em declínio, daqui a dois séculos estaremos irremediavelmente perdidos. Essas crianças, esses velhos e essas mulheres indefesas que mencionaste não passam de farrapos sem qualidade de vida, que unicamente servem para os vossos políticos verterem lágrimas de crocodilo e depois os arrumarem em depósitos. A morte é a sua libertação, e o desejo de Deus, poupamos-lhes o sofrimento e poupamos o dinheiro do Estado.

- Vocês querem fazer o Memoh retroceder às suas origens primitivas, em que os mais fracos são aniquilados.

- A espécie que tentar sobrepor-se às leis de Deus e do Seu Universo, estará irremediavelmente perdida. Nós somos a reserva estratégica do Memoh, connosco ele sobreviverá e conservará o seu lugar no Corpo.

- O vosso trabalho na Federação dos Membros Inferiores está à vista, as áreas que vocês declararam terem “libertado”, vivem agora num estado de terror, as populações são violentadas e aniquiladas.

- Ainda não te apercebeste que os teus chefes manipulam constantemente a informação e só deixam passar aquilo que querem. Isso é que é violação!

- Mas os factos são visíveis, vocês assassinaram milhares de indivíduos.

- O que é que tu preconizas quando os teus porcos ficam doentes devido a uma doença contagiosa? - Pergunta o representante do Cancro, interrompendo o agente cardíaco Miguel Pheidão.

- Os meus porcos? Mas eu não tenho porcos.

- Não interessa, é só uma ideia, não tens tu, mas tem o teu vizinho. O que é que preconizas para erradicar a doença?

- O abate, é o que se faz para parar a doença!

- É isso o que nós fazemos, o Memoh é o responsável pela transmissão de doenças gravíssimas, e se essa lei se estender a ele, em pouco tempo resolver-se-ão a maior parte dos problemas. Com estas medidas conseguimos erradicar a Adis dos territórios que conquistámos.

- E os intelectuais, vocês mataram-nos todos!

- São os seres mais nocivos, os intelectuais sempre se consideraram acima do povo, fizeram as leis à sua medida e perpetuaram-se no poder. As suas verdades são as piores mentiras, já conduziram os povos às mais infâmes barbaridades, por isso a sua recuperação não é viável, devem ser banidos. O nosso povo irá regressar à harmonia com a Natureza e com Deus.

- E as famílias, vocês preconizam a destruição da família, – diz Miguel Pheidão já um pouco exaltado.

- O teu regime manipulou-te a verdade, essa informação não é correta. A família está agora ao nível da tribo para não haver influências nocivas nos membros mais novos, para assim se evitar o aparecimento de indivíduos inúteis à sociedade. Nas vossas cidades existem milhares de famílias em que os pais, os responsáveis pela formação dos filhos, não passam de bêbados, drogados, autênticos selvagens que nem o instinto paternal, comum a todas as outras espécies, possuem, e não fazem mais do que os formarem à sua imagem. E o que é que vocês lhes fazem? Nada, refugiando-se nos direitos deles dão-lhes tudo e não lhes exigem nada. Por detrás dessas ideias quem é que está? O reles intelectual e o corrupto político, – explica o representante do Cancro, mostrando toda a sua convicção no tom das palavras.

- Pode haver muitas verdades em tudo o que dizes, mas no meio desse turbilhão de ideias de certeza que morreram e morrerão muitos inocentes.

- A salvação do Memoh implica sacrifícios, assim como as vossas revoluções destruíram povos e impérios. Até Deus cometeu genocídios em nome das Suas verdades!

- Apesar de tudo o nosso sistema continua a ser o melhor, atingimos níveis superiores de desenvolvimento.

- O nosso encontro não é para expor ideias, mas para falar de política. Que preocupação tem o poderoso Coração para mandar um agente encontrar-se com um representante dos terroristas das terras baixas?

- Espaço vital, interesses...

- Interesses, sempre os interesses a sobreporem-se às ideias. Afinal o Cancro já está a perturbar o Coração e nós a pensarmos que a Federação dos Membros Inferiores era dispensável.

- Se os vossos objetivos se limitassem a essas regiões e não extravasassem as fronteiras, nós não interferíamos. Mas foram detetados e aniquilados grupos terroristas no Império do Cérebro, – o agente cardíaco tira duma pasta uma fotografia e coloca-a em cima da mesa. - Conhece?

O interlocutor vira-a para si e lê em voz alta uma inscrição na parede fotografada:

- “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – Racionalismo para todos – EU “

- Conhece esta frase e quem é o “ EU “?

- Ambos conhecemos o grupo de libertação que atua na Federação do Córtex Occipital. Essa frase foi escrita numa parede da cidade imperial Lóxis. O Coração estranhamente interveio com os grupos de elite, os Antibióticos.

- Foi o governo imperial que nos pediu!

- Governo!?? Nós sabemos que o Império do Cérebro não tem rei, nem governo, são vocês que o dirigem, aliás, vocês comandam quase todo o Corpo. Só a Monarquia Renal e a República dos Pulmões é que vos fazem sombra.

- Estou a ver que estão bem informados – diz com admiração o agente Miguel Pheidão, ao mesmo tempo que faz sinal ao empregado para lhe trazer uma cerveja.

- Sabemos tudo a vosso respeito, é por isso que vamos impor condições.

- Condições!??

- Queremos atuar para além da Federação dos Membros Inferiores, – responde com convicção o representante do Cancro.

- Vou transmitir essas informações aos meus superiores.

- O nosso próximo encontro será daqui a uma semana no Organon, até lá continuamos!

Levantam-se em simultâneo, trocam um seco cumprimento e desaparecem na multidão.

Durante toda a viagem de regresso, acompanhada de pequenas pausas para as habituais reflexões do motorista Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, o agente Miguel Pheidão fez uma retrospetiva da sua missão. O Cancro parecia estar muito bem informado acerca das operações especiais do seu departamento, aliás o representante devia saber muito mais. Irá revelar-lhe coisas que nem ele, um fiel servo de sua majestade D. Sístole II, sabe? E que consequências terão essas verdades na sua futura conduta? Estremece, estremece de terror, será o fim da sua fidelidade? Terá o governo cardíaco manipulado a informação?

 

48 - (14) Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Mais Célebre Motorista do Universo

 

14

“Se ninguém me pergunta onde está Lilith, eu sei. Se me perguntam querendo que eu explique, não sei.”

 

Demónio do Meio-Dia

 

 

O mais célebre motorista do Universo

 

O Sol já há muito se levantou e ilumina agora, com orgulho, a cidade Nódulo, o centro mundial monetário. Aqui se fabrica a mais forte moeda do planeta Corpo, a coronária. Os altos edifícios alinham-se com precisão ao longo da vasta avenida Helias I. A Companhia de Transportes de Glóbulos Brancos mostra, vaidosa, o seu emblema, que ocupa toda a frontaria do edifício. Miguel caminha a passos largos para a paragem das camionetas.

Esta talvez seja a sua mais importante missão, pois à partida parece estar tudo perdido. Ontem recebera um fax do Ministério das Relações Exteriores, informando-o de que tinham conseguido estabelecer contacto com um dos representantes do grupo de terrorismo Cancro. Com a carta veio uma ordem de partida e as instruções. Vai somente recolher informações e nada mais. O Cancro é constituído por um grupo de guerrilheiros das terras baixas, muito ativos na Perna Direita, controlando dois terços do país. Pretendem derrubar o governo, destruir o Estado, para depois erguerem uma nova sociedade. Para eles as cidades de nada servem, unicamente tornam o Memoh num alienado e inútil. O único serviço que os indivíduos devem prestar à sociedade é cultivarem a terra. A família é também outro dos malefícios. As crianças devem ser separadas das mães desde muito cedo e entregues aos cuidados do Estado. Bastarão cinco gerações para a revolução triunfar e se eternizar.

- Fanáticos, não passam de alienados, – diz Miguel em voz baixa, entrando no autocarro que indica “ Crossa da Aorta “ como destino.

Senta-se na última fila de cadeiras, pendura o blusão verde e abre a pasta que lhe foi dada pelo senhor de cabelo branco, que se encontra sentado junto ao motorista. Retira uma carta com mais informações acerca da missão e fica unicamente a saber que na Crossa da Aorta deve apanhar outra carreira para “ Mais Alta “. Esta aldeia está ligada à lenda de Octávio, o detentor da verdade. Segundo contam, este santo teve um contacto com alguém de outro mundo quando tinha sete anos de idade, e se encontrava a pastar as ovelhas do seu avô. A inesperada e assustadora visita disse à inocente criança que lhe iria contar a verdade acerca do futuro do Corpo, tendo ele depois como missão divulgá-la. Octávio ouviu com muita atenção e no fim do dia contou a aventura ao avô, que a transmitiu à noite na taberna, sob o efeito dos vapores de álcool. Como era de esperar ninguém acreditou! Mas como os céus não brincam em serviço, o dia sobrepôs-se repentinamente à noite, confirmando assim a mensagem da criança e deixando o povo em pânico. A notícia depressa se espalhou e Octávio e a aldeia Mais Alta tornaram-se nos símbolos sagrados do país, responsáveis por milhões de peregrinos, que tornaram os pacatos aldeões em prósperos e gananciosos comerciantes, conseguindo assim influenciar o pensar de vários povos.

Um solavanco trá-lo à realidade, apercebendo-se de que tinham saído da cidade e começavam a subir para a Crossa da Aorta. Passam agora junto ao Real Colégio Militar e o agente secreto da monarquia cardíaca, Miguel Pheidão, recorda o passado. Aos dez anos entrou para aquela instituição, onde permaneceu durante seis anos. Aprendeu dois valores fundamentais: fidelidade e camaradagem. A fidelidade ao rei é e será sempre total, a missão para que foi incumbido será totalmente cumprida, e os seus camaradas nunca serão traídos. Mas o mais importante que aconteceu passou-se no segundo ano dos estudos. Até lá não dizia palavras obscenas por temor da justiça divina, até que um dia resolveu libertar-se da Sua tirania e gritou bem alto o vocabulário que estava guardado no fundo dos abismos da alma. E Deus não o castigou! Descobriu então que tudo era falso e só Deus é que conhecia Deus. Um novo solavanco chamou-o de novo à realidade. O autocarro acaba de parar no cume. Miguel Pheidão sai calmamente, espreguiça-se e observa o espectáculo. Em baixo, ocupando toda a vasta planície, estende-se a Crossa da Aorta, a “capital” do Corpo, a cidade de todas as raças e onde circulam todas as moedas. O movimento é frenético, os tempos são muitos, as pessoas ocupam todos os espaços e todas as direcções, e até os ventos se misturam com as ideias para formarem castelos de nuvens, que descansam suavemente nos telhados verdes das vivendas, que serpenteiam pelas encostas. Ao fundo, descendo suavemente por um trilho poeirento, uma camioneta centenária acorda toneladas de pó, que se precipitam desastrosamente para a colorida planície. Miguel Pheidão ainda tem tempo para se proteger atrás do sinal da paragem, pois uma das rodas vem adiantada em relação à máquina, que chega alguns minutos depois. A porta da frente abre-se com estrondo e com a ajuda das botifarras do condutor.

- Ó amigo, é esta a carreira para a aldeia Mais Alta?

- Amigo!!? O senhor conhece-me de algum lado para eu ser seu amigo? Trate-me por senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, senhor...

- Pheidão, Miguel Pheidão.   

- Miguel Pheidão!?? Que raio de nome, os seus pais de certeza que não gostavam de si, – diz o motorista rindo-se para trás, sendo acompanhado em coro pelos passageiros.

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua?! O seu nome não me é estranho. Já o ouvi em algum lugar.

- Sou conhecido em todo o Universo. Até Deus já me pediu boleia quando quis ir buscar o filho a Leve! Mas entre rápido pois o tempo não está para retóricas, vamos mas é todos a sair porque está na altura da palestra, – ordena o motorista, bloqueando a entrada ao novo hospede e abrindo, ou melhor, deixando cair a porta de trás com estrondo, provocando a queda de uma velhota e da sua respectiva dentadura, que fica a reclamar em cima de uma bosta.

- Malditos anjos-selvagens, só sabem é conspurcar o Universo. Ai se eu fosse Deus! - Reclama o motorista mais célebre.

A multidão sai apressadamente e forma um pelotão em marcha forçada.

- Ponha-se na formatura, senhor Miguel...Miguel Pheidão (risos). Já sabem que para poderem viajar na deusa, – e aponta para o ferro-velho ambulante, – têm de ouvir as minhas sábias palavras de cinco em cinco quilómetros.

Um trovão, de mão dada com um ensurdecedor raio, rasga os céus e faz precipitar um dilúvio.

- Não liguem ao S. Pedro, ele gosta de brincar com o povo, mas o povo é sereno e já não é estúpido, e quem não se deixar enganar pela Natureza não se molha, – grita o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua elevando os braços, ao mesmo tempo que todos os elementos do pelotão abrem os seus coloridos guarda-chuvas. - Já vi que aprenderam as minhas lições, pois mais vale prevenir do que remediar. Senhora Otélia-Perna-Curta, aproxime-se de mim e proteja-me da chuva.

Por momentos, só o barulho da tempestade se faz ouvir.

- Os habitantes do Corpo já descobriram que os deuses estão dentro deles. A Lei morreu, a Democracia não existe, o Memoh é ditador por natureza e as suas leis só servem os poderosos. Declaro que a partir deste momento sou o mais livre dos seres do Corpo.E agora todos lá para dentro porque tempo é dinheiro.

O transporte colectivo arranca, após um barulho aterrador que sai do seu tubo de escape em forma de barbatana, e lança-se vertiginosamente por um dos montes acima. O Sol já se levantou há muito tempo e parece estar agora a ficar cansado, pois está a deixar cair as sombras pela região. Algumas palestras depois chegam finalmente ao destino.

- Bem-vindos à aldeia Mais-Alta, ao sítio abençoado por Deus e negociado pelos negreiros das almas.    

47 - (13) Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 8

 

13

O Primo

 

Reino dos Pulmões – Tempo sem data

 

Caro amigo Miguel, espero que estas cartas escritas à pressa ou devagar, consoante o tempo que escolheres, te dêem algumas pistas, pois uma porta se vai abrir em breve e o tamanho do teu mundo aumentará. Como vês, as únicas verdades do Universo, que é comum a todos, são o Tempo e o Espaço, pois sem elas nem Deus, que também é de todos, existia.

Consegui arranjar transporte para os Pulmões, numa velha carripana guiada por um primo do Álhi, o “Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua”, como se apresentou e exigiu ser tratado. Em troca da boleia prometemos assistir a um debate, onde iria expor a sua teoria sobre as vantagens do estado de caos. Depois de uma subida alucinante, em que as apostas sobre as capacidades mecânicas do transporte coletivo foram a ruína de muitos, iniciámos uma descida vertiginosa com a roleta a entrar novamente em ação.

- A lógica é inimiga da sorte - gritou o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua - pensem com os pés.

- É para parar senhor Maximiliano, – pediu uma velhota, marreca e zarolha.

- O respeitinho é muito bonito, – disparou-lhe prontamente o motorista, – o nome é para dizer todo, caso contrário não funciono.

- Desculpe, desculpe, mas é devido à minha dentadura. Há certas palavras que a fazem encravar no céu da boca, – e deu uma palmada na face direita. - Senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da Lua, faz o favor de parar. Necessito de sair.

- Com certeza minha excelentíssima senhora, mas não se esqueça de ir ao debate, senão para a próxima vai a pé.

A paragem foi um pouco difícil, aliás a velha acabou por ser lançada pela porta do meio.

- Não disponho de condições técnicas nem filosóficas, para proceder a uma paragem com personalidade, – disse o condutor, tornando a aumentar a velocidade, - a próxima paragem é na vila Louca.

A velocidade a que íamos ultrapassava a resistência deste ferro velho ambulante. Aliás, praticamente fizemos uma aterragem forçada na vila Louca, depois de termos perdido duas rodas, uma da frente do lado direito e outra de trás do lado esquerdo, e o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ter perdido o controle da máquina, após um pião de trezentos e sessenta graus.

Comecei a ver a vila Louca quando alcançámos o topo do monte. Lá de cima podiam-se distinguir claramente as carecas dos seus estranhos habitantes. O frenesim característico estava hoje muito ampliado, talvez devido às espessas nuvens negras que passavam no horizonte. De repente, fui albarroado por um discurso frenético de uma velha, saída não sei donde. Depressa apercebi que ela me ignorava, dir-se-ia que eu não existia, que o mundo dela estava constantemente a desaparecer, a perder o significado. Discutiu violentamente durante alguns minutos com uma árvore, até que estancou, ficando assustadoramente como uma estátua. Dir-se-ia que naquele momento lhe tinham roubado a alma. Fiquei alguns momentos a olhar para a estranha obra de arte, até que resolvi prosseguir a viagem. Entrei cautelosamente na vila, fazendo tudo para não ser notado. Não precisava de tantas cautelas, eles não me viam, eu não existia, contudo, desviavam-se à medida que avançava. Entrei num café e por estranho que pareça fui atendido, apesar de me ignorarem. De tempos a tempos todos gritavam, para de seguida continuarem os seus afazeres. O grito era-lhes tão vital como o respirar. As identidades mudavam constantemente, apesar de continuarem calmamente a viverem. O dono do café mantinha um discurso contínuo e ultra-rápido. Em poucos minutos mudara de identidade várias vezes. Regressava à minha realidade com uma naturalidade assustadora, quando eu lhe fazia um pedido.

- Podia-me indicar o caminho para o Girus Ângular.

- Saia pela porta do café, vire à direita antes da árvore com as folhas amarelas, construída pela andorinha perniciosa, tome cuidado com a sua úlcera gástrica, siga em frente, passe junto ao edifício dos correios, diga bom-dia ao amanhecer (neste momento deu um especacular salto, seguido de uma receção ao solo com as pernas fletidas, acompanhada de um grito estridente, tendo-se endireitado rapidamente e prosseguido o seu contundente discurso) e aconselho-o a contemplar o azul-marinho das cataratas (era impressionante, dir-se-ia que fazia constantemente uma fuga à verdade; as cataratas já há muito tempo que tinham desaparecido, devido ao desvio do rio pelo Coração; mas no entanto eles viviam ardentemente esta irrealidade, apesar de também estarem perdidos dentro dela) – e nada mais disse, ficando inerte, suspenso da vida.

Lá fora uma rapariguinha loira troteava alegremente uma estranha canção:

- Não têm narizes / as filhas perdidas de Lilith/ oh, o cheiro alegre da água / o cheiro vivo de uma pedra!

Fiquei por momentos petrificado a olhar para aquele anjo, sim ela era sem dúvida um anjo, até que um buzinão do senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua nos chamou, provavelmente para outra deslumbrante viagem.

- Não sabia que agora também gostava de diabinhos – gritou-me, ao mesmo tempo que atirava uma pedra à rapariguinha – vai para o Inferno e deixa-te de enganar as almas perdidas

 

Do teu Narciso.

 

 

46 - (12) Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - carta 7

 

12

 Organon

 

Crossa da Aorta – tempo sem data

 

Amigo, estou deitado a contemplar as estrelas que semeiam o céu, tendo em baixo, no vale, a Crossa da Aorta, a grande estação ferroviária por onde se escoavam todos os produtos cardíacos com destino aos quatro cantos do Corpo. Do outro lado ainda se pode ler, escrita com tinta luminosa: “As teorias passam. A rã fica”. Esta frase encontra-se por cima da porta que dava acesso ao Organon, uma organização de ambientalistas que lutava contra a tirania dos cientistas. Este grupo de auto-eleitos punha e dispunha das outras espécies, a maior parte das vezes pelo simples prazer de os ver sofrer. E não tentavam no Memoh porque a lei não o permitia. Caso lhes deixassem o caminho livre, até onde é que eles iriam em nome da “ciência”? A população, através das denúncias do Organon, começou a desconfiar dos seus “génios”, apercebeu-se que o dinheiro neles investido nada produzia além de trabalhos de duvidosa qualidade, e que a fauna do país estava a ser destruída. Os grupos de dissidentes aproveitaram-se do descontentamento e atacaram, denunciando os carrascos e questionando os cidadãos acerca do aumento do poder dos cientistas. A classe política foi sendo dominada por estes, e os valores que suportavam as leis alteraram-se. E tinham razão em denunciarem a aterradora conspiração! Um dia um grupo de cientistas foi autorizado a fazer experiências num condenado à morte e depressa lhe injetaram um vírus pertencente a uma arma biológica. A observação das reações foi sofregamente seguida pelo grupo, até que um descuido permitiu a fuga do prisioneiro cobaia. O pânico instalou-se no Centro de Investigação Militar. O fugitivo era portador de uma terrível arma, capaz de destruir toda a espécie. As buscas foram longas até conseguirem abater a presa, mas o mal estava espalhado. O alerta geral foi lançado e os estados prepararam-se para combater a terrível praga do fim do século. Os cientistas e os seus políticos lacaios depressa arranjaram um culpado por tão mortífero vírus. Mais uma vez o dedo foi apontado para uma outra espécie, o desgraçado macaco-verde, habitante das florestas tíbiais. Os alicerces morais foram abalados pela pressão dos indivíduos sãos, que pretendiam isolar e destruir os contaminados, para assim destruírem os invasores. Estas medidas até não eram novidades, pois o Memoh aplicava-as impiedosamente nas outras espécies. O arrogante Memoh, que se proclamava o mais inteligente e poderoso dos animais, estava agora nas mãos de um inimigo invisível e implacável. Como sempre apareceram falsos moralistas gritando raivosos de pedestais, que os mantinham afastados dos contaminados, a defenderem-nos. Mas a doença era para todos e também eles, abutres da alma, foram atingidos e humilhados. As sementes da revolução estavam lançadas e as mentes vazias de conteúdos. O Memoh era um animal de fácil adaptação e depressa superou as dificuldades, acabando por aprender a viver com elas. A partir daqui foi dada nova confiança aos torturadores para combaterem o inimigo. Mas desta vez já estavam divididos e muitos organizaram-se na resistência Pus.            

                                                Do teu, Narciso

sexta-feira, 1 de maio de 2026

45 - (11) Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 6

 

11

Baluster

 

Cidade Tricúspica – tempo sem data

 

Caro amigo, encontrei de novo o velho Álhi, desta vez a discursar emotivamente para uma assembleia de esqueletos calmamente sentados num anfiteatro. Dizia-lhes em voz alta: 

- Antes ser louco por seu próprio critério do que sábio segundo a opinião dos outros!

- Essa já estamos fartos de ouvir, – gritou um dos presentes, um moribundo.

- E ainda hei-de dizer muitas mais vezes, até os teus amigos encarnarem. Já nem para os abutres servem!

Após a eloquente palestra que fazia inveja aos políticos que governaram os destinos do país, Zaratustra contou-me a história de Baluster, o maior sábio do planeta. Filho de uma família de agricultores dos Altos Rins, depressa chamou à atenção da aldeia onde morava. Aos 6 anos de idade projetou o sistema de captação de água da humidade noturna, resolvendo de uma vez por todas a crónica falta de água da região. Conseguiu uma bolsa de estudos e mudou-se para o Colégio Real na capital. Aos 19 anos completou o curso de medicina e especializou-se em manipulação genética. Individuo de boa formação moral, foi o responsável pelo aparecimento da chamada Geração dos Sábios, homens brilhantes que deram um grande impulso à medicina corporal. Mas, um acidente imprevisto, matou o Dr. Baluster, deixando sem rumo a universidade e o país. O grupo da Geração dos Sábios interveio e retirou vários núcleos das células do seu mestre, tentando assim fazer renascer Baluster. O projeto foi apadrinhado por toda a classe dirigente e dum momento para o outro três dos núcleos começaram a desenvolver-se. Um ano depois a Universidade Renal de Manipulação Genética era dirigida por três doutores Baluster. Foi nessa altura que as relações com o Coração se deterioraram, o que levou a monarquia cardíaca a cortar com os fornecimentos sanguíneos. Como resposta os Rins deixaram de reciclar os resíduos cardíacos, tendo estas medidas afetado enormemente as economias dos dois países. Os dois governos depressa se aperceberam da interdependência a que tinham chegado e rapidamente restabeleceram os serviços, mantendo-se a disputa ao nível político. E foi aí que os novos Baluster entraram em ação, através da manipulação genética dos seus inimigos. Equipas de ação entraram clandestinamente no território vizinho e conseguiram infiltrar variantes celulares nos organismos dos jovens cardíacos, através dos alimentos que exportavam. O cardíaco era um indivíduo naturalmente arrogante, mas muito trabalhador. Julgavam-se uma raça biologicamente superior e o seu comportamento já era genético. Quando as alterações se começaram a fazer sentir, a juventude do Coração tornou-se muito contestatária e violenta. Queriam viver unicamente de subsídios. O caos instalou-se na capital e só a pronta intervenção da polícia é que conseguiu restaurar a ordem. Mas por pouco tempo! A juventude estava corrompida e depressa contaminou a dos países vizinhos, pois as variantes celulares tinham dado origem a um vírus facilmente transmissível sexualmente. Mais uma frente de guerra contra os nossos adversários invisíveis estava aberta. E tudo isto devido a um sábio!

                                        

Do teu, Narciso

44 - (10) Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 5

 

10

A Razão

 

Aurícula Direita - Tempo sem data

 

“ Hoje somos menos prisioneiros da natureza, mas somos mais prisioneiros de Lilith “. Um pensamento estranho que li escrito no tronco de uma árvore, aliás, da única árvore decente que encontrei até agora. “ Razão “, palavra mágica para todos, a mais poderosa arma alguma vez inventada. Por causa dela dividiu-se a população em duas partes: os senhores e os servos. Aos primeiros deu-se uma linguagem total, enquanto que aos segundos forneceu-se uma linguagem útil, suficiente. Era por isso que os políticos tomavam todas as decisões, pois alegavam que a população “ mal falava “. A monarquia cardíaca depressa divinizou a palavra e assim apareceu a deusa Razão, com as suas leis eternas e imutáveis, estendendo a todos o seu despotismo. No Cérebro, a ditadura perfeita, os indivíduos eram controlados desde a nascença, sendo dado a cada um um certo destino, útil à comunidade. Os bebés eram colocados em envolvimentos diferentes, para assim se transformarem em racionais e irracionais. O Estado decidia quem deveria pensar. Um dia apareceu escrito numa parede da Cidade Imperial do Cortex Occipital a seguinte inscrição: “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – racionalidade para todos – EU, grupo de libertação “. O pânico embrenhou-se no poder! Afinal nem todos estavam controlados. Racionalidade para a escumalha?! Isto significava o desagregar dos neurónios, a destruição das unidades estruturais do Estado. Imaginem as unidades do Córtex Temporal começarem a produzir o mesmo que as do Córtex Parietal?

Foram enviadas brigadas de antibióticos para as zonas de potenciais conflitos, mas nada descobriram, pois o Eu era produto da imaginação duma população mentalmente doente. A crise era grave, como se poderia apagar um sonho coletivo, um enfarte populacional? Mais uma vez a deusa Razão atuou e decidiu que aqueles que conseguiam ler nas paredes brancas, estavam contaminados por uma terrível doença muito contagiosa, e só havia um meio para a combater, a destruição dos doentes. A população ficou com o poder de aniquilar os que mencionassem o Eu. A paz retornou ao poderoso Cérebro. O Estado, que se confundia com o poder, com o chefe, era representado por todos e por ninguém. Falava-se muito do rei, mas ninguém o conhecia ou o vira. Parecia que todos mandavam em todos, que uma engrenagem perfeita regulava a vida e a comunidade. Cada indivíduo nascia para uma função, era encaminhado e formado para ela, transmitiam-lhe as informações necessárias para o desempenho do seu papel. Nada mais lhe dava!

                  

  Do teu Narciso

43 - (9) Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 4

 

9

No rasto de Lilith

 

Cidade Tricúspica - Tempo sem data

 

Caro companheiro de viagem do planeta Leve

 

Encontro-me na cidade sagrada, a menina dos olhos do rei Sistole II. Era um lugar imaginado por muitos e visto por poucos. Agora todos podem entrar e sair, as suas muralhas não passam de amontoados de pedras, cobertos por musgo e pela vergonha dos memohs. À minha frente as ruínas do majestoso palácio real parecem dar-me as boas-vindas, ao mesmo tempo que me avisam dos perigos existentes. Era aqui que se decidia o rumo do Corpo, as virtudes dos memohs e os vícios dos cardíacos. Quando a comida acabou, começaram-se a comer uns aos outros. Pela primeira vez a ordem social alterou-se e as classes inferiores passaram a ditar a lei, a lei da vida, pois eram organicamente mais fortes.

Tricúspica era quase uma lenda, muitos a reclamavam como terra sagrada, universal para os memohs, proibida para os outros. Diziam os adoradores que fora ali que Deus espalhara a Sua energia cósmica pelos cantos do planeta, dando origem ao Memoh. Mas como é que um Ser tão perfeito poderia ter criado um ser tão imperfeito? Deus começou a ser posto em causa! Os cardíacos bem tentaram argumentar, mas a discórdia estava instalada. Os sacerdotes recusavam a mudança, pois sabiam que com ela viria a sua desgraça. No momento em que as muralhas ruíram, a força de Deus desvaneceu-se e a discórdia dos memohs reinou. As massas de gentes em fúria tomaram de assalto os centros de vícios e durante uma semana o paraíso prometido por muitos tornou-se realidade e acalmou as hostes dos deserdados.

Acabei de entrar na sala sagrada, onde outrora se acumularam os inúmeros tesouros dos falsos profetas. Durante séculos e séculos foram acumulando as esmolas dadas pelos pobres de espírito, em troca do reino dos céus. A fome generalizada de povos inteiros não sensibilizou os poderosos tricúspides, alheios ao sofrimento dos outros. Quando as portas foram abertas o espanto calou a multidão durante algumas horas e todos recearam entrar. O brilho dos tesouros iluminou a noite e mostrou as caras aterrorizadas da assistência. Até os anjos choraram perante tal espetáculo, que lentamente despertou a assistência do seu longo sonho. E com a pesada fadiga nasceu um ódio terrível que ecoou por todos os cantos do Universo. O espírito do Memoh ficou vagabundo no caos, sentado em cima dos destroços do seu escusado milénio. A única marca deixada pelo furacão foi o trono cardíaco, vestígio dum passado desnecessário, imagem dum futuro a evitar. Por cima dele uma placa com dizeres: “ Alguém deve ser a causa do meu mal-estar...és tu mesma, Lilith os teus pecados são a causa do meu mal “. “ Pecado “, a palavra mais sublime para o maior negócio alguma vez feito no Corpo. Imaginem serem acusados de algo que nunca fizeram e terem de pagar toda a vida, para mais tarde serem absolvidos. E afinal o Tempo é circular!

A cidade Tricúspide fica situada no centro do país, sendo toda ela rodeada por muralhas. Um enorme portão controlava a circulação das pessoas, sendo necessário uma autorização especial para se poder entrar. Era um estado dentro do estado. O Coração não detinha qualquer poder dentro da cidade. O “amigo” de Deus, Helias II, era o dono e senhor de tudo e de muito mais. Dominava mentalmente metade do Corpo e especialmente os Rins, sua terra natal, não hesitando em lançar o seu povo contra o ditador que os governava. Helias II era um fanático adorador da mãe de Deus, uma estranha senhora que só tivera coragem de aparecer a três criancinhas vadias, condenando duas à morte e a outra a um encarceramento durante toda a vida. E no entanto dizia-se representante do Bem! Este acontecimento também rendeu muito dinheiro aos parasitas mentais. Poucos eram os que tinham acesso ao monarca tricúspide. Na altura da revolta ninguém o encontrou, sendo hoje talvez um dos perseguidos por Deus.

                             

 Do teu, Narciso